Powered By Blogger

domingo, 17 de março de 2013

"Encantado da Vida"



Quando ele recebe o telefonema reconhece logo aquela voz do passado recente. Embora tivessem deixado de falar frequentemente, não a esqueceu e fica surpreendido por lhe ligar agora. Em tempos ela disse-lhe que eram um caso arrumado, no entanto volta a ligar-lhe para saber dele. Conversam um pouco, desligam e é tudo.
Passam-se alguns dias. Ele vai ao centro comercial fazer compras de final de dia e, ao virar da esquina no final de um corredor, dá com ela por acaso. Cumprimentam-se com a familiaridade de sempre, mas ele tem as mãos carregadas de sacos e ela fica ligeiramente embaraçada com a surpresa e diz que vai com pressa. Dali a pouco, ela envia-lhe uma mensagem simpática para o telemóvel.
  "Gostei de te ver” – diz a mensagem dela.
 "Eu também gostei muito de te ver” - Responde-lhe ele.
É curioso, porque não se cruzam há três anos e, subitamente, parece que o destino os empurra um para o outro. Ele fica a pensar nisto sem saber bem como interpretar a coincidência. Ela fica a pensar nele, um pouco aflita, porque lhe parece que o tempo deles passou e não terão uma segunda oportunidade. Acaba uma semana, e acaba outra. Não voltam a falar. Ele envia-lhe uma mensagem por impulso, reagindo a um pensamento, a uma perplexidade.
“Porque me deixaste? “
“Porque na altura não acreditei em nós” - responde-lhe.
“E agora?”
“Agora acredito” - diz a mensagem dela.
Quando a viu pela primeira vez ficou encantado para toda a vida. Em breve, disse-lhe que era preciosa, uma raridade, que a desejava. Ela, desconsertada, acabou por admitir que o amava. Porém, a vida afastou-os e hoje ele não está convencido que ela continue a pensar o mesmo de outrora. Decide que não deve forçar nada, que se realmente for uma inevitabilidade voltarem um para o outro o destino encarregar-se-á de a trazer de volta. Pois bem, ela não está disposta a esperar pelos caprichos do destino e envia-lhe outra mensagem a convidá-lo para se encontrarem. Combinam na mesma esquina do mesmo centro comercial. Desta vez ele percebe que ainda a ama tanto como antigamente. Logo que a vê sabe que continua encantado para a vida. De modo que a abraça e a beija e percebe que tinha mais saudades do que estava disposto a admitir a si próprio, talvez para se defender de uma tristeza infinita. Mas agora tem de arriscar. Ela também tem a certeza e diz-lhe ao ouvido.
- Nem imaginas a falta que me fizeste.
- Amo-te, responde-lhe ele.
- Ainda bem, diz ela, porque não tenciono deixar que saias da minha vida novamente.

( 17/03/2013)
Joaquim Rodrigues

"Amor Ausente" (HD) Joaquim Rodrigues


"Ausencia"



Eu acho que sei, o que é ausência.
Ausência, é sentir teu perfume, e não estares presente.
É eu escutar sozinho, aquelas músicas, que nós os dois mais gostamos.
E fazer um esforço para não chorar.
Ausência, é lembrar-me de ti.
E de todos aqueles momentos felizes juntos e tremer.
Ausência, eu acho que sei o que é.
É sentir a falta da felicidade que tu me dás.
E de toda aquela alegria, que me bens dar.
E a teu lado sentir, que o que é bom, é contigo estar.
E ver teu olhar, e te dizer, vem-me beijar.
Ausência, eu acho que sei o que é!.
É procurar nos jardins, teu sorriso, e não o encontrar.
É me estender na minha cama à noite, e te imaginar.
E lembrar-me do teu rosto e vibrar.
Ausência é eu ser obrigado a pensar.
Enquanto o que eu mais quero, é sim te amar.
E tu não estás aqui, não estás comigo, estás ausente!.
 
(16/03/2013)
Joaquim Rodrigues

sábado, 16 de março de 2013

"Bohemia" (HD) Joaquim Rodrigues


"Aquele Amor"



Quando amamos alguém, não perdemos só a cabeça, perdemos também o coração. Sentimos o coração saltar para fora do peito, mas depois quando volta, já não é o mesmo, é outro, com cicatrizes novas.
Às vezes volta muito maior, se o amor for feliz, outras, regressa feito numa bola de trapos, é preciso reconstruí-lo com paciência, dedicação e muito amor-próprio. E outras vezes não volta. Fica do outro lado da vida, da vida de quem não quis ficar para o ajudar, para ficar do nosso lado.
Hoje ainda penso em ti, de todos aqueles dias felizes que passamos juntos, hoje ainda sinto saudades tuas. Mas saudades um do outro é algo que vamos sentir sempre não é mesmo?
Quando duas pessoas já foram tão próximo uma do outro como nós fomos, e viveram essa proximidade de uma maneira única, aquilo a que tão raramente podem chamar intimidade, há marcas que ficam para sempre, sendo por isso inútil, e até ingénuo tentar apaga-las. Mede-se o poder de uma mulher sobre um homem pelo tempo que ele gasta a pensar nela durante a sua ausência, ao passo que se mede o poder de um homem sobre uma mulher quando este está com ela.

(15/03/2013)
Joaquim Rodrigues

"Amar um Sonho" (HD) Joaquim Rodrigues


"O Meu Sonho"



Quando amamos alguém, temos sempre tempo para essa pessoa porque tudo nela nos faz feliz. E se ela não vem ter connosco, nós ficamos esperando.
É como lidarmos com o verbo esperar, o verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar. E a nossa vida transforma-se como se fosse uma estação de comboios, o vento anuncia-nos a chegada antes do alcance do olhar. O amor na espera ensina-nos a ver o futuro, a desejá-lo, a organizar tudo para que ele seja possível.
É mais fácil esperar do que desistir. É mais fácil desejar do que esquecer. É mais fácil sonhar do que perder. E para quem vive a sonhar, é muito mais fácil viver.
O que mais dói quando se ama alguém, é imaginar tudo o que não conseguimos realizar juntos. O que vivemos é um tesouro que nunca se apaga da memória, mas é o que não construímos que nos entristece e mata.
O poeta ao falar de amor deixa-o no papel e lá fica para sempre escrito as suas palavras. E se vier a transformar-se em qualquer outra coisa, será sempre uma outra forma de amor: o papel vem das árvores, mas (o amor vem de dentro de nós, vem do peito esse nunca morre), mesmo depois de cortado das árvores, o papel é prensado e transformado. Amar é como plantar uma só semente, e tu já plantaste a tua no meu coração.

(15/03/2013)
Joaquim Rodrigues

"Mar, Calmo" (HD) Joaquim Rodrigues


"O Mar"



Eu temo muito o mar, o mar enorme.
Solene, enraivecido, turbulento.
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento.
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
 
Eu temo o largo mar rebelde, informe.
De vítimas famélicas, sedento.
E creio ouvir em cada seu lamento.
Os ruídos dum túmulo disforme.
 
Contudo, num barquinho transparente.
No seu dorso feroz vou blasonar.
Tufada a vela e na água quase assente.
E ouvindo muito ao perto o seu bramar.
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente.
Escarro, com desdém, no grande mar.
 
(16/03/2013)
Joaquim Rodrigues

sexta-feira, 15 de março de 2013

"Dança de Amor" (HD) Joaquim Rodrigues


"A Dança do Amor"



Minha querida amiga! Ainda hoje sinto o teu cheiro, o cheiro do teu corpo, do teu perfume, sinto teu cheiro desde aquela noite, que saímos para dançar, um cheiro que me excita e me faz lembrar de ti a todo momento. Passado todo este tempo pensei então, te convidar para dançar novamente neste fim-de-semana aceitas? Pois eu quero voltar a dançar contigo! Quero repetir todos os passos de dança, que demos, naquele dia, dançar contigo de rosto coladinho, e sentir teu respirar fungante no meu ouvido e te conduzir e te embalar em meus braços, ao som de uma música romântica, a música que tu escolheres. Quero dançar contigo um bolero, um tango, uma balsa, ou então um passo-doble quero é dançar contigo!
Quero dançar encostadinho a ti, e fazer aqueles nossos passos de dança descontraídos como fossemos voar nas asas do amor! E quero sentir o calor do teu corpo, sentir teu transpirar teu suor, e continuar dançando sem nunca parar. E depois sair para a rua sentirmos o vento nos refrescar e continuar perdido na dança do amor. Este fim-de semana quero dançar contigo à noite, no baile, ou na rua ao luar, ao dia à luz do Sol, na areia da praia, na água do mar, ou simplesmente na luz de um farol, quero é contigo dançar!
E quero sentir teu corpo úmido, sentir teu pé, o meu pisar, te ver voar como uma estrela em bicos de pés e me beijar, e feita numa estrela que me quer iluminar. Quero assim passar mais um serão contigo a dançar ter-te na minha mão! Juntar o nosso amor nesta dança e voltar! Voltar com teu odor teu perfume na minha ilusão.

09/09/2012:
Joaquim Rodrigues:

"Esta Noite" (HD) Joaquim Rodrigues


"É Lindo"



Deitada e arrebitada em fofo leito.
Deixas erguer tua virginal camisa.
Na sombra eu vejo teu estreito.
No meio de tuas coxas se divisa.
 
Pelo loiro em círculo imperfeito.
Papudos beicinhos lhe matiza.
Húmidos mas meu alvo perfeito.
Nessa cor vermelha discada e lisa.
 
Tua pele voraz de guelras encrespando.
Arrumas, e abres para mim entre gemidos.
E tu mulher tremes, de olhos quebrados.
Como é lindo ver, te perder os sentidos.
Mas vais com a mesma ânsia trabalhando.
Meus sentidos de homem ficam perdidos.
 
(15/03/2013)
Joaquim Rodrigues

"Hero" (HD) Joaquim Rodrigues


"O Meu Pensamento"



Quando penso em nós dois, tua boca me torna ansioso, penso que já não há limites para meus lábios, percorrendo teu corpo num crescente e incontrolável frenesim de desejo sufocado! Ensaiados perdemos o frágil controlo que nos resta nesta nossa maratona de amor. As poucas peças de roupa que ainda nos cobrem são arrancadas em desespero enquanto nossas bocas se unem num beijo alucinado, para em seguida deslizar por nossos corpos, beijando-os, e acariciando-os mordendo levemente, aspirando com prazer o odor erotizante que arrepia da nossa pele molhada de prazer, deixando-nos completamente ensandecidos.
É assim que eu nos imagino minha querida. Todos os dias, todas as noites, e é assim que mal acordo eu começo a pensar! Tu e eu, mais ninguém, num amor intenso sem ter mais nada. Eu encontrei minha paz no teu sorriso, minha força no teu existir, nossos dois corações num só destino, num só segredo, dois corações numa mesma vida que se encaixam perfeitamente e dependem um do outro. Apenas um coração seria solidão, seria um céu nublado sem estrelas, seria um espetáculo sem público, uma lua sem claridade, um coração sem sentimentos. Minha alma se identifica, (quando há uma história de dois corações), as estrelas renascem, e o espetáculo é aplaudido de pé. A força de dois corações é imenso, chega a ultrapassar o tempo, e navega a correr para a …FELICIDADE!

(15/03/2013)
Joaquim Rodrigues

quinta-feira, 14 de março de 2013

"Amor Secreto" (HD) Joaquim Rodrigues


"O Poema"



O poema é como um corpo, de mulher.
Tem de ser suave, leve, e belo.
Tem de possuir, pontos sensíveis.
Que com um simples toque o faça vibrar.
Tem de ser forte, delicado flexível.
Mas inquebrável.
Para alguns é impenetrável.
Mas para alguém é especial.
É aberto transparente claro.
 
(14/03/2013)
Joaquim Rodrigues

"Bom Dia Tristeza" (HD) Joaquim Rodrigues


"O Palhaço"



Por eu gostar de levar a vida na brincadeira.
Tu um dia me chama-te de covarde e palhaço.
Lembra?.
Mas na verdade se tu tivesses acreditado.
Nas minhas brincadeiras de dizer verdades.
Terias ouvido muitas verdades.
Que insisto em dizer brincando.
Falei sim muitas vezes, como um palhaço.
Mas nunca como um covarde!
Porque sempre acreditei.
Na seriedade da plateia que sorria!.
 
(13/09/2012)
Joaquim Rodrigues

"Aniron" (HD) Joaquim Rodrigues


"Silêncio ao Jantar"



Um silêncio pautado por gestos lento marca a rotina tranquila do jantar. À mesa, o casal ensimesmado é como que uma ilha serena rodeada de águas alvoroçadas. Perto dele, um grupo de jovens contrasta com uma vozearia animada, e outras mesas mais completam a sala do restaurante cheia de conversas descontraídas de sábado à noite. Tanto ele como ela já passaram dos sessenta e vão entrando sem sobressaltos no ocaso de uma vida que nem sempre foi desenhada pelas escolhas mais certeiras, ou, enfim, sem arrependimentos. Mas foram as que foram e ambos acreditam que já não vão a tempo de as corrigir. Ele molha uma tosta no pratinho de azeite, leva-a à boca, mastiga-a demoradamente, em silêncio. Ela observa-o sem qualquer perplexidade. Conhece-lhe os silêncios tão bem quanto é capaz de lhe antecipar as respostas. Se lhe perguntasse agora o que está a pensar, ele demoraria uma pequena eternidade a responder para, finalmente, dizer: - Nada. Como se fosse possível ser um vazio de ideias enquanto mastiga uma tosta. Por isso, não lhe pergunta. E, no entanto, gostaria que ele dissesse qualquer coisa, nem que fosse para embirrar, para sacudir a apatia em que vai soçobrando a sua companhia. Houve um tempo em que ele ponderou mudar tudo, ousou sonhar de novo. Quis outro rumo com outra mulher. Ainda hoje acredita que era a mulher da sua vida. Mas não foi capaz de trocar uma vida pela outra, de enfrentar a dúvida da mulher certa pela mulher perfeita. Houve um tempo em que tudo ainda era possível, mas claudicou, faltou-lhe a coragem. Ela bebe um gole de água, pousa delicadamente o copo no lugar exato onde estava, cumprindo o espírito metódico de que nem se apercebe. Ele observa-a a limpar a boca com o guardanapo. Sabe que o ama mais do que o tolera, mais do que ele a tolera sem mágoa, pois não tem uma crítica para ela, nada que o incentive a detestá-la. Reconhece-lhe a dedicação exemplar, apesar da desilusão, apesar de saber que não merece o amor dela, e a única forma que tem para a recompensar é cumprir a promessa íntima de ficar com ela até ao fim. O empregado serve-os. Comem com vagar, num silêncio entrecortado por comentários breves que não dão azo a verdadeiras conversas. Por vezes, fica-lhes a impressão de que não têm nada a dizer um ao outro, que não seriam capazes de falar cinco minutos de um assunto em comum ou de uma futilidade qualquer. Pagam a conta, ele ajuda-a a vestir o casaco, saem do restaurante, vão caminhando ao frio para casa, perto. Um ligeiro assomo de culpa leva-o a dar-lhe o braço, sem saber que ela leva sempre um sentimento de gratidão por ter ficado quando podia ter partido.

(03/03/2013)
Joaquim Rodrigues:

"28 graus"


"Desejo"


Desejo teu corpo perto de mim.
Desejo para eu te poder tocar.
Desejo mexer encostado em tí.
Desejo como um louco te amar.
 
Desejo tua boca e o teu beijo.
Desejo tudo que me faz arder.
Tuas mãos no meu corpo desejo.
Desejo teus suspiros de prazer.
 
Desejo no meu colo te sentar.
Desejo em tuas pernas mexer.
Desejo teus lábios eu molhar.
Desejo teus beijos derreter.
 
 .Desejo o sabor da tua saliva
Desejo minha vida adocicada.
Desejo rasgar teus sentidos.
Desejo tua alma alucinada.
 
Desejo te esfregar toda em mim.
Desejo seguir em frente não parar.
Desejo te ouvir pedir assim, assim.
Desejo sentir amor me apaixonar.
 
(14/03/2013)
Joaquim Rodrigues

           
 

"Infinito"


"O Rio"




   Ó rio que Vais Correndo.
  Levas meu bem que eu Adoro.
  Se te faltarem as Águas.
 Levas as Lágrimas que Choro.
                                                              
Aí vai meu Coração.
Se o quiseres Matar podes.
Olha que estás dentro Dele
 Se o Matas também Morres.
                                                                                                                                                                       (Joaquim Rodrigues)
                                                                                                                             

 

 


 

 

 

quarta-feira, 13 de março de 2013

"Saudade" (HD) Joaquim Rodrigues


"A rua da Solidão"

 


De manhã, acordo, vou à casa de banho, olho no espelho e mal me lembro do que aconteu à noite, tomo o banho do costume, volto para o meu quarto, visto a roupa que escolhi, penteio meu cabelo, vou até à cozinha preparar o meu café, e ao passar pelo corredor finalmente me lembro do que aconteceu, Fico calado por alguns instantes, fico ali sentindo medo, e não me consigo mexer.
Olho no espelho do corredor e mais uma vez vejo um garoto que agora sorri, mas está com o mesmo olhar, mas acho estranho meus olhos não se mexer, os mantenho fixos somente ali, mas desta vez não me assusto, e arrisco conversar com o garoto, ele apenas sorri e me olha.
Olho para trás, e não vejo ninguém, mas quando volto meus olhos para o espelho, o garoto está ali na minha frente, da mesma forma, parado sorrindo e olhando para mim. Agora sem medo algum, tomo o meu café, e parto para o meu trabalho. Em meu trabalho eu conto a um colega o que está acontecendo comigo, meu colega diz que é coisa de minha cabeça, que eu devo estar a ficar louco, mas eu estou convencido do que vi, e não me deixo levar pelas palavras de meu colega.
Mas várias perguntas surgiram na minha mente, será que aquele garoto era mesmo coisa de minha cabeça? Será que meu colega tinha razão? Eu estarei a ficar louco?
– Estas perguntas nunca terão respostas, mas eu estou envolvido nos acontecimentos, e estou disposto a fazer tudo para saber quem era aquele garoto, e por esse motivo, eu saio do meu emprego e me dedico totalmente a descobrir essa curiosa história. Vou para casa, mas claro ainda decido passar pelo mesmo lugar que passei no dia interior da minha rua, com a intenção de ver novamente o garoto, mas não o vejo. Sento-me na calçada e espero que anoiteça, mas nada acontece, então decido voltar pra casa.
Chegando a casa tomo o meu banho como de costume, enfio meu pijama e vou para a cozinha jantar. Mas até aí nada aconteceu.
Descobri que sou um homem sozinho, e penso como um garoto, e que passei a ver coisas em minha casa, e na minha rua também! E que tinha amigos imaginários, tudo isso por causa de eu viver na “Rua da solidão” e que afinal esse garoto também não era, imaginação!?

(13/03/2013)
Joaquim Rodrigues

terça-feira, 12 de março de 2013

"Amar" (HD) Joaquim Rodrigues


"Premonição"


Hoje ela liga o rádio logo de manhã, enquanto prepara o pequeno-almoço na cozinha. Nunca o faz, é um gesto impulsivo. Está a dar uma música que não ouvia há muito, que costumava escutar com ele, mas depois arrumou num canto esquecido da memória, como fez com tudo o que lhe dizia respeito. Agora, passados aqueles anos, ao ouvir inesperadamente a música, recorda-se dele com um certo sabor a nostalgia. Deixa-se ficar a ouvir, a recordar a letra, I crossed all the lines and I broke all the rules/ But baby I broke them all for you/ Because even when I was flat broke/You made me feel like a million buck / You do/ I was made for you. Escuta a música e pensa que ele era isto mesmo, capaz de quebrar todas as regras por ela, de fazer tudo por ela e, no entanto, um dia deixou-o. Na altura pensou que era melhor assim, pensou... pensou que ele não era suficientemente bom, foi isso. Abandonou-o de qualquer maneira, uma conversa embaraçosa enquanto tomavam uma bica e lhe dava as suas justificações fúteis, um suspiro enquanto se afastava apressada do café. Na altura, sentiu-se tão aliviada por ter despachado o assunto que nem pensou nele, não pensou em mais nada. Dá-se conta de que a música acabou, levanta-se da cadeira, desliga o rádio, pega na carteira, sai de casa. No elevador, ocorre-lhe que foi injusta, ele não merecera a falta de estima, o descuido com que o tratou, mas depois encolhe os ombros, estas coisas são mesmo assim, pensa, acabou, ponto final, não lhe atendeu mais o telefone, e então? Estiveram uns dias de chuva, como se o Verão tivesse acabado, mas ao sair para a rua apercebe-se de que o Sol voltou. Sente-se feliz, vai caminhando até ao metro atenta às montras, toma nota mentalmente de algo que quer comprar, pensa fazê-lo à hora do almoço. Desce as escadas do metro, chega à plataforma quando as portas do comboio se fecham. Não se importa, não está atrasada. Observa-o distraída a partir e, nesse instante, tem uma visão e o sangue gela-lhe nas veias, o coração salta. Ele está ali, à sua frente, no comboio, e ela não sabe o que fazer, não consegue pensar, não reage. É só um momento, ele não a vê, o comboio acelera, parte. Fica paralisada, a pensar na música premonitória, a pensar nele. Está igual, o mesmo de sempre, não envelheceu, aquela expressão descontraída, o ar simpático de que mal se lembrava mas é como se o tivesse visto ontem. Vem-lhe tudo à cabeça, as recordações todas, os momentos bons, as promessas felizes, um jantar especial, um dia na praia... e então sente uma angústia, tem uma enorme sensação de perda, uma certeza de que nunca ninguém a amou como ele. E já passou tanto tempo...

22/02/2013:
Joaquim Rodrigues:

segunda-feira, 11 de março de 2013

"LEMBRANÇAS DE AMOR" (HD) Joaquim Rodrgues


"O DIA DA MINHA AVÓ"


Parece que ainda estou a ver a minha avó ao longe na sua silhueta descontraída, vestida de tarde, essa sim era uma mulher, e nunca lhe fizeram homenagem alguma por ter sido mulher. (hoje a mulher tem muitas vénias, tem até o seu dia internacional).Subia a ladeira na calma amarelada do dia que suportava uma beleza silenciosa. Era já velha com os seus noventa anos (a idade não serve só para envelhecer), magra, de mãos enroladas, vestida de negro, rosto cansado pelos tantos anos já vividos sobre aquela face que, tantas tardes, como aquela já viu e viveu. Sobe com a energia possível, carregada de umas sacas de quilos de compras, que ao passar pela mercearia ela as tinha pedido que as pesasse. Quando chegava ao cimo chegava transpirada mas feliz, ela era muito feliz, o que não entendo é que era feliz para que todos os outros o fôssemos, principalmente os que a rodeava como eu hoje sei que era verdadeira e pura, a felicidade da minha avó.
No Dia Internacional da Mulher, é bonito, fica mesmo bem, é fixe tecer comentários elogiosos sobre a mulher. Quase nenhum especialista que se pronuncia pelos média, a torto e a direito, e pretende exibi-la como género superior a expõe, e a apresenta como a origem de conflitos.
Ninguém a quer ver como personagem capaz de incendiar uma casa, estragar uma relação, de levar aos arames uma companhia, uma família. A mulher de hoje não é a mãe querida, que se torna na avó querida de outrora, e da fantasia, que se perdia por entre tachos e panelas, e que nos criava sempre debaixo da saia, com o amor e o carinho de mulher, que reluzia por dentro.
A mulher do tempo moderno não é deusa, e é cada vez mais espécie do sexo feminino, mais capa de revista, do urbano e mundano, e menos da cozinha e do consenso sociofamiliar. Sobre ela atraem necessidades novas, apelam exigências sociais que moldam para padrões de vida exigentes e egoístas, às vezes degradantes, que lhe induziram características que não a beneficiam, antes a despem, antes a tomam mais dependente, insatisfeita, mais objeto, que outros mais bem-intencionados a anunciam como revolução e emancipação. Coisa polémica será sempre a mulher de hoje! Para mim, a minha Avó, hoje como sempre, merece uma homenagem.!!!

11/03/2013)
Joaquim Rodrigues:

"BELLE" (HD) Joaquim Rodrigues


"A VARANDA"

                                     

Foi há muito, muito tempo, mas ele lembra-se como se fosse hoje desse episódio fugaz que lhe marcou indelevelmente a vida. De tempos a tempos ainda regressa ao hotel em onde a conheceu, já não com a esperança de a reencontrar, embora, no fundo, persista a fantasia de imaginar como seria se desse com ela tantos anos depois. Faz hoje exatamente dez anos que se conheceram na larga varanda onde serviam refeições leves. Lembra-se de ter fechado os olhos protegidos pelos óculos escuros, deleitado com o Sol quente do final desse Inverno, e, ao reabri-los, ter reparado que ela se sentara à mesa do lado. Sorriu-lhe, ela retribuiu. Era uma mulher bonita e o seu cabelo, de um amarelo quase branco, fulgia com o reflexo da intensa claridade do dia. Acendeu um cigarro, estendeu-lhe o maço, ela rejeitou educadamente.
 - Não fumo, disse.
 Comentou que era agradável aproveitar aquela varanda num dia soalheiro. Ela concordou. Continuou a falar. Não era o seu gênero meter conversa, muito menos sair-se bem, mas estava inspirado, eloquente, bem-disposto, fê-la rir-se com gosto. À frente deles estendia-se um extraordinário jardim desenhado à tesoura, com sebes geometricamente recortadas. A conversa fluiu pela tarde, continuou durante um passeio tranquilo pelo jardim florido, acabou de novo na varanda com o Sol mortiço, uma chávena de chá. E, no final do dia, ficaram com a sensação de se conhecerem há muito. Convidou-a para jantar, ela recusou.
 - Hoje não posso, disse, mas talvez amanhã, se nos encontrarmos aqui.
 - Combinado, respondeu, entusiasmado.
 - Combinadíssimo, reforçou ela, sorridente.
 No entanto, no dia seguinte não compareceu ao encontro e, ainda hoje, ele não sabe porquê. Não estava hospedada no hotel e não havia forma de a localizar, perdeu-lhe irremediavelmente o rasto. Contudo, ficou sempre aquela impressão de se entenderem perfeitamente, de natural cumplicidade. Agora, sentado à mesma mesa, fecha os olhos e imagina que, ao reabri-los, a descobre sentada ali ao lado como na primeira vez. Isso não acontece, evidentemente. Mais tarde, ao sair do hotel, cruza-se com uma mulher de cabelo loiro quase branco no preciso momento em que o empregado o chama, trazendo uma chave esquecida, e ele, voltando-se para o homem, não dá atenção ao vulto que passa por trás de si. Ela também não lhe vê o rosto e não o reconhece de costas. Ele vai-se embora e ela vai sentar-se na varanda, à mesma mesa de sempre, onde, por vezes, gosta de aproveitar o sol e imaginar como seria se ele aparecesse de repente e retomassem a conversa como se não tivessem passado dez anos.
 (10/03/2013)
Joaquim Rodrigues:

sábado, 9 de março de 2013

" UM AMOR COLORIDO" (HD) Joaquim Rodrigues


"Um dia de Chuva"


 A mensagem dela entra no computador através do Facebook quando ele está a trabalhar. Não a lê logo. Pensa que talvez já seja altura de a esquecer definitivamente. Afinal de contas, não se encontra com ela há mais de um ano. Mas é um amor que ficou, apesar de tudo, uma recordação que persiste num perfume errante que o faz virar a cabeça ao cruzar-se acidentalmente com alguém que tem o cheiro dela, que poderia ser ela, mas não é; que persiste nos lugares por onde passa e o deixam preso a olhar com perplexidade, recordando os momentos em que lá estiveram os dois; é um amor que ficou para trás mas que teima em regressar com muitos pretextos indesejados que lhe traem a determinação. Mas, enfim, é só isso, um assunto antigo, resolvido, uma recordação dissolvida em duas vidas separadas por caminhos divergentes.
Lê a mensagem duas horas mais tarde. É um comentário banal, para meter conversa, parece-lhe. Responde-lhe com palavras curtas, com a informalidade de velhos amigos. Ela, porém, insiste, de modo que os comentários prosseguem no chat, para cá e para lá, pelos dias seguintes.

(Joaquim Rodrigues)
A pastelaria é como um abrigo caloroso numa rua movimentada de Inverno. Senhoras idosas entram a sacudir os guarda-chuvas, refugiam-se à volta de um chá quente a desabafar as suas queixas. Eles os dois estão sentados a uma mesa junto à janela. Uma velha solitária vem acomodar-se a uma mesa quase colada à deles. Demora-se a despir uma gabardina donde pingam restos de chuva, a organizar um acervo de sacos, a encostar à cadeira um guarda-chuva que teima em escorregar para o chão. A mulher senta-se finalmente, olha para eles, interrompe-os.
- Estejam à vontade, diz, conversem o que quiserem que eu cá sou surda. Eles aquiescem, abafam o riso, retomam a conversa. Ali estão os dois, depois de tanto tempo sem se verem. A conversa no chat trouxe-os ali, àquela pastelaria anónima, onde combinaram um pequeno-almoço tardio para se verem e atualizarem as vidas distantes que levam hoje em dia. O empregado traz-lhes café e um pão aborrachado que os faz rir da insipiência que grassa nesta pastelaria de bairro. Mas nada daquilo lhes importa, senão eles próprios.
Lá fora, o vento forte arrasta gotas grossas de chuva que deslizam pela vitrina. Dentro, eles falam dos seus dias, como costumavam fazer noutra vida, e, não obstante tudo o que os separou, descobrem que se entendem com a mesma facilidade e a mesma alegria de outrora. É uma revelação para os dois, ainda com interrogações, mas, quando saem da pastelaria, vão rua fora debaixo de um guarda-chuva, enfrentando juntos a saraivada de chuva e a pensarem que já sobreviveram a outras tempestades muito piores, e ainda ali estão.

 19/02/2013:
Joaquim Rodrigues:

sexta-feira, 8 de março de 2013

"ROMÃNTICO (HD) Joaquim Rodrigues


"DESPERTAR A CURIOSIDADE"


                                      

 Estão os dois nus na cama. Ele deposita-lhe um beijo casto no seio e ela solta uma gargalhada, divertida com a sua atitude de cavalheiro inveterado até na confusão dos lençóis desfeitos. Puxa-o mais para si, aproxima-lhe a boca do seio exposto e diz-lhe que se deixe de cerimonias  que o quer apaixonado e sôfrego. Mas diz-lhe isto com palavras francas e uma desenvoltura de mulher adulta e sem remorsos de trair o marido que também a trai todas as sextas-feiras nas traseiras do café da praia com uma rapariga trigueira que ela conhece de lhe servir a bica de manhã e de se servir do seu marido ao final do dia, num quartinho quase indigente, quente e abafado, onde mal se respira. Ela sabe isto tudo mas não quer saber, diz que do seu casamento já só restam os cacos e que, se ainda vivem juntos, é porque não têm dinheiro para duas casas. É uma mulher madura e robusta, que já passou há muito dos quarenta mas vai deixando a idade assentar sem se amargurar com as desilusões. Já ele é um viúvo chegado aos sessenta sem saber quase nada do sexo feminino, pois foi sempre homem de uma só mulher, a única que namorou, casou e enterrou com uma profusão de lágrimas de alma perdida. Pensou que não aguentaria a vida sem ela, que não poderia comer por não saber cozinhar, que iria descomposto à missa de domingo por não saber fazer o nó da gravata que ela lhe fizera todas as manhãs sem uma única falha em trinta e um anos de casados. Viveram um para o outro com uma dedicação resignada e uma paciência feliz, apaixonados até ao último minuto. Não tiveram filhos nem foram mais longe de casa que os limites da própria vila, tirando raras exceções como o casamento de um primo, que distava cinquenta quilômetros  Contudo, desde que enviuvou, despertado por uma curiosidade súbita, apanhou o comboio e foi à capital. E depois de esquadrinhar incansavelmente a cidade, meteu--se na camioneta e foi para Sul para descobrir onde acabava o país. E, não satisfeito, continuou a viagem por todas as cidades, vilas e aldeias do país. Pensou prosseguir caminho para lá da fronteira, mas entretanto conheceu a vizinha, que esteve sempre do outro lado da rua. Recebe-a em casa todas as sextas-feiras ao final da tarde e ela afoga-o em beijos quentes sem lhe dar tempo para a cumprimentar e despe-lhe, peça por peça, a roupa toda desde a entrada até ao quarto e mete-se debaixo dele com um ardor que não conhecia. Descobriu que pode fazer amor sem amor e que aquela mulher alegre lhe diz entre gargalhadas, na intimidade dos lençóis, as mesmas palavras dissolutas que ele só costumava ouvir dos homens. E está curioso por conhecer melhor as mulheres.
 (03/03/2013)
Joaquim Rodrigues:

"ESQUECIDO" (HD) Joaquim Rodrigues


"O DESCONHECIDO"


                                      

 Ele pousa os olhos nela, embevecido, como que observando algo raro e precioso. Ela voltou-se automaticamente ao ouvir chamar pelo seu nome e, depois de um instante de desorientação, percebeu que tinha sido aquele desconhecido que gritara por si. Veio aproveitar a manhã ensolarada a deambular pela feira, nas ruas fechadas ao trânsito, deitando uma olhadela às velharias baratas que os feirantes arrumam em cima de panos estendidos no passeio. Entretém-se a descobrir coisas curiosas entre a infindável tralha de objetos inúteis que se encontram naquele espólio em segunda-mão. Interessa-se por um gancho para o cabelo em prata rendilhada de especto antigo, diverte-se a negociar um preço irrisório com o feirante, acaba por ficar com ele por uma nota pequena, guarda-o no bolso do casaco. Quando ele a chama, ela vira-se, descobre-o parado entre a multidão, no meio da rua. Inclina a cabeça para a frente, confusa, e, por momentos, pensa que ele está a chamar outra pessoa. Olha em redor, perscrutando o ambiente à espera de ver alguém a responder-lhe, mas não, é mesmo a si que se dirige. Aponta um indicador contra o próprio peito, como que a perguntar se é com ela. Ele dá alguns passos em frente, encurta a distância entre os dois, fica ali especado a olhar para ela com um ar enfeitiçado. Ela faz um sorriso expectante, à espera que diga qualquer coisa.
 - Não estás a reconhecer-me, pois não?
 - Hum, não, responde ela, entre a embaraçada e a divertida.
 - Não fazes ideia de quem eu sou?
 - Não, repete. A voz arrastada deixa em suspenso um desejo de esclarecimento. Então, ele diz-lhe que é um colega de liceu de há vinte anos. Ela tem uma exclamação, embora não se lembre do nome e o seu rosto ser-lhe apenas vagamente familiar. Não admira que não se recorde, pois do rapaz com quem partilhou a mesma sala de aula só resta a sombra de uma ténue parecença. Hoje em dia, ele tem o cabelo a ficar grisalho, está inchado, desmazelado. Não obstante, há o tom de voz, a forma de rir, algumas expressões, que lhe despertam lentamente a memória. Quer ver-se livre da sua companhia, mas ele está tão entusiasmado e fala tanto que acabam por andar por ali a passear enquanto vão recordando os velhos tempos. Agora já se lembra perfeitamente, ele foi o seu primeiro namorado, o seu primeiro beijo, uma paixão enorme e fugaz. Casou, teve filhos, divorciou-se. Ela? Não casou, teve uma longa relação que terminou recentemente. Acabam a tomar um café, a recordar a adolescência, despedem-se. Ele parte, ela abana a cabeça desconcertada, a pensar que quando era miúda amou desesperadamente aquele desconhecido, que não lhe diz nada, não lhe desperta o menor interesse.

(24/02/2013)
Joaquim Rodriguem:

"SENSUAL MAS SÓ" (HD) Joaquim Rodrigues


"SOLIDÃO"

                                       

Toca uma música no apartamento dela. Está sozinha, vive sozinha. Trabalha de manhã, de tarde, acaba o dia no ginásio, volta para casa, prepara qualquer coisa para comer. Normalmente, janta na sala com um tabuleiro nos joelhos, a ver um pouco de televisão, e deita-se cedo para repetir tudo igual amanhã. Os fins-de-semana são mais difíceis de preencher, por vezes tem um jantar com amigos e é bom, mas quando regressa a casa ao final da noite sente-se ainda mais sozinha. Hoje não lhe apeteceu ver televisão, pôs um CD a tocar e sentou-se no sofá a pensar. Na televisão, o mundo é frenético, alegre, colorido, os anúncios, os programas, os concursos, toda a gente está muito feliz. Quando sai com os amigos, é ver qual deles se diverte mais, fala mais alto, ri-se mais alto. Uma mentira, o mundo não é assim alegre. Ela sabe, as pessoas fingem que está tudo bem, mas andam perdidas como ela, à procura da felicidade, à procura de um cantinho seguro. Pensa no que teve, no que podia ter tido, no que lhe passou ao lado, pensa no que pode fazer para melhorar a sua vida, para voltar a viver. Já passou dos trinta não tem mais vontade de continuar com essa falsa alegria, e gasta as energias todas no trabalho. Mas todos os dias pensa que quer mais, que a vida não pode ser só isto, não tem de ser só isto, que o tempo não tem de se arrastar como se estivesse apenas a gastá-lo sem o partilhar com alguém que ame, que a ame, sem sentir a felicidade de o partilhar com outra pessoa. Não quer ficar o resto da sua vida sozinha, com medo da solidão. O que ela deseja é ter alguém ao seu lado que a ame, só isso, e depois então já não precisará de fingir que está tudo bem. O CD acaba e o silêncio enche a sala como uma bolha de ar prestes a rebentar. Ela levanta-se, olha à sua volta, a roer uma unha sem se aperceber disso. O apartamento é pequeno, mas parece-lhe grande demais de tão vazio. Falta-lhe uma companhia com quem falar, alguém que jante com ela, que durma com ela a noite inteira. Vai para o quarto, despe-se em frente ao espelho a perguntar-se se haverá algo de errado com ela. Veste um pijama, deita-se com um livro que não lhe apetece ler. Lê duas páginas a custo, desinteressada, com as letras a fugirem-lhe dos olhos que se fecham, e adormece com ele em cima do peito, os óculos na cara e um sonho feliz, no qual, finalmente, tem tudo o que lhe falta. 

(08/03/2013)
Joaquim Rodrigues

"SEGURA-ME" (HD) Joaquim Rodrigues


"ALGUÉM ESPECIAL"


                                       

 Ela sai do trabalho com pressa e corre para apanhar o autocarro. Quer ir a casa vestir outra roupa, qualquer coisa mais bonita, mais sofisticada. Vai a uma exposição de pintura e está entusiasmada por ter um programa diferente, para variar. Fecha a porta de casa, atira a carteira para cima do sofá, entra no quarto contíguo à sala já a despir-se, abre o armário, escolhe um vestido. Troca de roupa rapidamente e segue para a casa de banho. Pinta levemente os olhos, observa-se ao espelho, satisfeita com o que vê. É bonita, mas está sozinha há algum tempo. Volta a pensar nisso, é um pensamento que não a larga ultimamente. Subitamente, sente-se perdida. Regressa à sala e desaba no sofá. Vasculha a carteira à procura de um cigarro. A sala são vinte metros quadrados, o sofá, a televisão, o armário com alguns livros, nada de especial. O que há de especial na sua vida, pergunta-se. Havia uma pessoa, um homem que amava, mas deixou-o para trás. Era complicado, demasiado complicado, não acreditou que podia ser feliz com ele e agora não é feliz de todo. Deixou-o para trás, ele acabou por desistir dela, as duas coisas, embora, na sua cabeça, não o tenha deixado para trás. Deixa-se cair de costas, quase deitada, com os cotovelos apoiados em cima dos braços do sofá, como uma náufraga no seu próprio sofá, num desconsolo. De repente, já não lhe apetece ir à exposição, já não lhe apetece coisa nenhuma, senão chorar, talvez. Ainda assim, dali a pouco, obriga-se a levantar-se, a recompor-se, a sair de casa. Entra na galeria de arte e descobre quadros enormes num espaço moderno, iluminação forte, um rumor alegre. Respira fundo, avança, junta-se aos amigos e fala a todos com uma alegria que não sente. Diz a todos que está feliz, que é muito feliz. Pensou que se saísse e se divertisse seria suficiente. Mas não é. Ainda assim, está apostada em contrariar a melancolia. Aceita um copo de vinho branco – não gosta de vinho branco, mas e então? –, troca piadas com os amigos, diverte-se! É o que parece. Uma amiga apresenta-lhe um amigo. Ele fica por ali a rondá-la com uma conversa agradável e ela não o rejeita. Mais tarde, o amigo da amiga pede-lhe o número de telefone e ela pensa por que não? Apanha um táxi de volta para casa, encosta a testa ao vidro, uma lágrima solitária desce-lhe pelo rosto. Pensou que pudesse conformar-se... Vai direta para a cama, mas a tristeza espanta-lhe o sono. Desperta num sobressalto às três da manhã. Descobre que tem o telemóvel na mão. Procura o nome dele e escreve uma mensagem:
"Estás aqui?, pergunta".
Segundos depois recebe a resposta:
"Estou, estou sempre aqui".
Ela escreve de volta:
"Eu sei, querido".
E torna a adormecer, agora mais tranquila.

(08/03/2013)
Joaquim Rodrigues

"ESTRANHO" (HD) Joaquim Rodrigues


"UM FIM-DE-SEMANA ESTRANHO"


- O que se passa? Pergunta a amiga, estranhando-lhe o sorriso triste quando se sentam na esplanada.
 - Nada, porquê?
 - Estás um pouco aérea.
 - Aérea? Não.
 - Estás apaixonada, declara a amiga.
 - Estou agora!  Mas pergunta-se se será possível apaixonar-se num fim-de-semana. Pergunta à amiga. - Claro que sim, responde esta com convicção.
Foi com outra amiga a uma festa onde não conhecem ninguém, mas a amiga não se atrapalha e já está acompanhada. Ela, pelo contrário, é incapaz de falar com desconhecidos, de modo que fica ali aborrecida. Já bebeu dois vodkas tónicos e não está acostumada, mas vai ao bar pedir o terceiro só para estar ocupada. Encosta-se ao balcão a bebericar. Um homem à sua frente pede-lhe licença para se aproximar do bar.
 - Obrigado, diz ele, estas festas são piores que o metro em hora de ponta.
 E ela solta uma gargalhada sonora. Não sabe porquê, mas acha-lhe um graçalhão. Acorda de manhã alarmada num quarto estranho. Tem ao lado um homem adormecido que não reconhece, perscruta o próprio corpo com as mãos e descobre horrorizada que está nua, embora com a roupa interior. Esgueira-se da cama, descobre o vestido numa cadeira, agarra-o, volta-se e surpreende o desconhecido a sorrir-lhe.
 - Ias-te embora sem te despedires?
 Tapa-se com o vestido e embrulha-se numa justificação sem sentido. Ele levanta-se e ela solta um gemido involuntário ao vê-lo nu, mas fica mais tranquila quando percebe que está de boxers. Ele vai abrir a janela, desvendando uma vista deslumbrante sobre uma planície que termina no mar a quilómetros de distância.
 - Onde estamos? Pergunta-lhe, a pensar que nunca mais toca em álcool.
 Ele, espantado, responde:
 - Estamos em Leça.
 - Olha, diz, eu sei que pareço tontinha, mas não sei como vim aqui parar e não me lembro de ti, nem sei o teu nome.
 Ele vai acender um cigarro, encosta-se ao parapeito da janela a fumar, conta-lhe a noite passada.
 - E nós... Fizemos alguma coisa?
 - Não, diz ele a rir-se, foste uma desilusão.
 Fica mais aliviada, mas quer ir-se embora, só que depende daquele homem simpático e atraente que fuma à janela em boxers. Ele promete levá-la a casa, se ela ficar para o almoço. 
- E fiquei o fim-de-semana todo, conta agora à amiga.
 - Uáu! Exclama esta, e dizias tu que não se passava nada!
 Ela faz uma careta, diz.
 - Pois, foi isto.
 - E agora? Pergunta a amiga.
 - Agora, nada, encolhe os ombros, ele despediu-se de mim, disse que me ligava, mas não ligou. Nem sequer fiquei com o número dele, achei que ia ligar-me.
 - Homens, diz a amiga, são todos iguais.
 - Pode ser que ainda telefone, afirma, sonhadora.
 - Pode ser, diz a amiga, só para não a desiludir.
 - E no entanto, à noite ela recebe uma mensagem dele e o seu rosto ilumina-se com um sorriso. 

(01/03/2013)
Joaquim Rodrigues:

"SUN IS SHINING" (HD) Joaquim Rodrigues


"PRIMAVERA"




Ela passou o sábado ocupada a tratar da roupa, mudar os lençóis das camas, aspirar, enfim, a fazer o que vai ficando para trás durante a semana, entre o emprego e o filho. Hoje, como ele foi para casa do pai, aproveitou. Mas quando a luz do dia acaba e se senta sozinha na sala, a penumbra e o silêncio trazem uma melancolia. De modo que decide sair, ver gente, tomar um café. Na rua, vai caminhando devagar, apreciando o perfume da Primavera. Pára por momentos, atraída por uma montra. Ele cruza-se com ela nesse momento e vê-a a sorrir sozinha, a olhar para a montra, mas não percebe a razão. Foi porque achou graça a uma bola de vidro, daquelas que neva se for agitada. Mais à frente, ele dá com uma esplanada e pára a ponderar. Há uma mesa livre e o ambiente é convidativo. A noite está amena e as pessoas conversam animadamente ali à beira do movimento tranquilo do bairro. Pensa não tenho pressa para nada, encolhe os ombros instintivamente e resolve ficar. Já na esplanada, ela repara numa mesa vazia e, ao passar por ele, vê-o avançar também para a mesa. Sorriem um para o outro, constrangidos.
 - Quer sentar-se? Pergunta ele.
 - Não, deixe estar, responde ela.
 - Parece que não há mais nenhuma livre, diz ele, podemos ficar os dois nesta, se não se importar.
 Ela hesita um segundo, mas aceita. Apresentam-se, pedem cafés, falam do tempo maravilhoso que faz. Depois descobrem que moram no mesmo bairro e cresceram na mesma escola, embora não se lembrem um do outro. Ela refere que tem um filho, que hoje está com o pai. Ele mostra-lhe a mão aberta, sem aliança e diz.
 - Eu ainda nem sequer casei. Passou uma hora e, repentinamente, ela anuncia que tem de ir. Contudo, de regresso a casa, pensa que gostou dele e recrimina-se por ter cedido aos receios, por se ter afastado, por não se querer apaixonar com medo de sofrer. Já ele, pensa que estúpido, nem sequer lhe pedi o contacto! E, num impulso, vai atrás dela. Percorre dois quarteirões a correr, sem a descobrir, volta para trás, lança um olhar em redor e dá com ela no passeio do lado de lá. Atravessa a rua, chama-a, alcança-a quase sem fôlego. Ela vira-se, surpreendida, e ele a rir-se, a arquejar, pede-lhe só um bocadinho para recuperar.
 - Que foi? Pergunta-lhe, divertida.
 - É que não me deu o seu número de telemóvel e podem passar mais vinte anos sem nos voltarmos a cruzar. Ela solta uma gargalhada, dá-lhe o número, diz-lhe adeus outra vez. Deixa-a ir com um aceno cansado, encosta-se a um carro, grava o número e liga-lhe. Ela acabou de virar a esquina, abana a cabeça, atende.
 - E já agora, diz ele, como estamos os dois sozinhos, não quer vir jantar comigo?

 (27/02/2013)
Joaquim Rodrigues:

"OLHAR" (HD) Joaquim Rodrigues


quinta-feira, 7 de março de 2013

"A FESTA"



Ao vê-lo sorrir para si fica atrapalhada e, quando ele se aproxima, baixa os olhos, roda nos calcanhares, sentindo as solas lisas dos sapatos de verniz deslizarem perfeitamente no soalho. Pensa nos sapatos, como deslizam perigosamente por serem novos, como são tão brilhantes como desconfortáveis. Não gosta de festas, das luzes psicadélicas a faiscarem cores que encadeiam, da música demasiado alta, da confusão de pessoas a dançarem, atropelando-se alegremente, lançando gargalhadas ruidosas que se perdem debaixo dos decibéis elevados. A sala vibra, os seus ouvidos vibram e só deseja sair dali e, sobretudo, que ele a deixe em paz. Arrisca um olhar tímido por cima do ombro para ver se ele desistiu de vir atrás de si. Percebe que parou a meio da sala, mas continua a vigiá-la pelo canto do olho. Vira precipitadamente a cabeça, sem saber se o terá encorajado. Olha em redor um pouco irritada, procurando uma saída de emergência, vê dois rapazes e uma rapariga passarem por uma porta. Avança para a porta sem pensar e vê-se num corredor deserto e silencioso. Dá uns passinhos inseguros na penumbra. A porta abre-se atrás de si e o estrépito da festa quebra o silêncio de rompante. Um rapaz e uma rapariga passam por ela com um olhar intrigado, soltam uma gargalhada cúmplice, continuam pelo corredor fora a rir-se dela, desaparecem ao fundo. Logo ali à frente, à direita, um clarão amarelo interrompe a luz frouxa do corredor. Ela aproxima-se, ouve vozes sussurradas, empurra um pouco a porta. É a cozinha. Os dois rapazes encostam-se ao balcão com a rapariga à frente. Param de falar.
- Entra, diz o que está mais próximo, que tem uma garrafa de cerveja na mão.
O outro puxa a rapariga para si e começam a beijar-se com um à-vontade lascivo. O amigo olha para eles, para ela, abana a cabeça e revira os olhos, aproxima-se dela, apoia uma mão na parede, por cima do ombro dela, impedindo-a de recuar para a porta.
- Como te chamas? Pergunta-lhe ao ouvido com a voz entaramelada.
Ela tenta passar por baixo do braço dele, mas ele dobra o cotovelo, bloqueando-a. Depois beija-a no pescoço, desajeitadamente. Ela debate-se, mas ele persiste por entre risadas. Os outros também se riem, incentivando-o. Ele encosta-a à parede, ela está em pânico. Uma mão determinada afasta-o dela, puxando-o violentamente pelos cabelos.
 - Voltas a tocar-lhe e vais parar ao hospital, avisa-o, num tom seco.
Eles não se atrevem a reagir. Ela recupera o fôlego, aliviada. É o rapaz que a vigiava na sala.
- Vamos, diz-lhe ele, não voltes a afastar-te de mim.
E ela segue o irmão pelo corredor, obediente e agradecida agora por tê-lo sempre a protegê-la. 

(07/03/2013)
Joaquim Rodrigues

"CONHEÇO O TEU LIVRO" (HD) Joaquim Rodrigues


"COISA DE FILME"

                                     


A reunião de trabalho prossegue sem ele. Ele está algures a pensar no livro ignorado em cima da mesa da cozinha, ao lado do prato. A comida está fria porque ele está a pensar no cinema, de onde saiu a pensar na esplanada do centro da cidade, onde se foi sentar, ansiando então por regressar a casa, contrariado por se ter esquecido do livro. Na mesa ao lado ela está com um livro nas mãos, mas os olhos teimam em navegar distraidamente pela página sem que retenha uma frase, uma ideia. Um miúdo com uma camisola às riscas dá um grito, ela espreita por cima do livro e ainda vê o balão que lhe escapou das mãos a ascender lentamente. O pai do miúdo levanta-se e atira a mão ágil ao fio do balão, falhando-o por centímetros. Ele vê a mesma cena. A criança começa a chorar, os pais prometem que lhe compram outro balão, mas o miúdo, inconsolável, não se cala. Ele cruza os olhos com os dela, estão os dois a testemunhar o pequeno drama. Ele sorri-lhe e encolhe os ombros. Ela tem uma reação idêntica, encolhe os ombros e faz uma careta divertida, fingindo-se aflita com a birra da criança. Ele repara no livro que ela tem no colo. Vai fazer um comentário mas hesita, não diz, diz, não diz... Fica uns segundos naquele impasse. Ela acaba por desviar os olhos. Ele não resiste e diz.    
 - Esse livro é muito bom, não é?
 Ela vira a capa para si mesma, como se precisasse de a ver para saber que livro está a ler.
 - É, concorda, mas é difícil ler com esta animação toda.
 - Também o estou a ler, diz.
 - A sério? Eu comecei-o hoje, ainda vou no princípio.
 - E eu estava aqui a pensar que me esqueci do meu.
À noite, na cozinha, ele tem o livro ao lado do prato esquecido, com a mente a vaguear, a lembrar-se da mulher que conheceu depois do cinema, da coincidência do livro e da conversa que teve com ela. Ele escuta vagamente o seu nome na reunião. Percebe que estão todos à espera que diga alguma coisa, mas estava outra vez a pensar nela e não faz ideia do que falavam. O chefe pergunta-lhe se está cá, o colega do lado segreda-lhe a pergunta. Ele pede desculpa, recupera a compostura, responde. Ao fim da tarde volta à esplanada. Leva o livro na mão e uma ansiedade latente. Quando a vê sentada na mesma mesa a ler o livro sente um agradável alívio. Aproxima-se sem saber que ela está só a fingir que lê, à espera que ele diga qualquer coisa, e diz.
 - Hoje também trouxe o meu!
 Ela, simulando uma surpresa, diz.
 - Olá, está bom? Então, hoje veio prevenido.
 - Hoje vim, diz ele.
 Depois senta-se à mesma mesa de ontem, ao lado dela e diz.
 - Estava a pensar que esta coincidência parece coisa de filme.
 Ela inclina a cabeça para trás ao soltar uma gargalhada e diz.
 - E eu fiquei a pensar o mesmo!

 (07/03/2013)
Joaquim Rodrigues

"HISTÓRIA DA VIDA" (HD) Joaquim Rodrigues


"DEZ DIAS DE AMOR"

                                  

 Ela vem a Portugal pela primeira vez em muitos anos de sua vida. Chega de avião o transporte possível de cá chegar, trazendo a reboque uma mala de rodinhas. Está de férias e decidiu tirar uns dias sozinha na cidade do Porto, onde não conhece ninguém. Vai ficar uma semana num pequeno e agradável hotel para os lados de Matosinhos uma pequena cidade um pouco mais a norte da cidade do Porto a cidade que ela vem visitar. Entra no hotel, vai ver o quarto, deixa a mala e volta a sair sem demora, excitada com a perspetiva de aproveitar o resto da tarde. Vai vagueando por Matosinhos, a reparar nos turistas que andam por ali com a maravilhosa sensação de ser também como uma estrangeira numa terra estranha. Mete por uma ruazinha estreita e, chegando ao fim, dá com um café de especto acolhedor. Como tem fome e quer refugiar-se do calor, entra e senta-se a uma mesa. O empregado que vem atendê-la fala-lhe em inglês. Ela solta uma risadinha e pergunta-lhe com o seu sotaque do Brasil.
 - O que o levou a pensar que fosse estrangeira?
 Ele coça a sua cabeleira já rara, desgrenhada, ligeiramente embaraçado. Ela com cabelo bem tratado ligeiramente castanho claro, olhos castanhos, ar um pouco perdido e sem pressa.
- Achei que era, explica-se, peço desculpa.
Ela ri-se, divertida com a situação.
 - Não faz mal, diz ela.
 - Não é estrangeira mas é de fora, nota ele.
 - Sim, é verdade, sou Brasileira, vivo no estado Rio Grande do Sul.
 - Pois, já tinha reparado no sotaque.
 Ele vai voltando à mesa dela, para saber se precisa de alguma coisa, para fazer conversa. Ela acha-lhe graça e responde-lhe com gosto. É um homem entroncado, descontraído, veste jeans e t-shirt, tem uma alegria natural que a entusiasma. À saída, vai abrir-lhe a porta e pergunta-lhe se tenciona voltar.
 - Talvez, responde ela, enigmática.
Despede-se, volta ao calor excessivo que ainda faz ao fim da tarde. Mas nos dias seguintes regressa sempre para tomar o pequeno-almoço e ele lá está para a servir, maravilhado por tornar a vê-la. Ela fica a saber que está ali a trabalhar porque tinha ficado desempregado, mas que contava ser por pouco tempo, já tinha em vista algo melhor, e como a vida continua tem que ser, e trabalha ali para pagar os custos de uma casa onde ele vive, fica a saber outras coisas dele. Passam juntos todas as noites, no quarto dela. Ao fim de o 10º dia, ele leva-a ao avião, e depois de a beijar com paixão ajuda-a a subir com a mala e só volta com a partida deste já em movimento. Regressa a casa com um sorriso triste, já com saudades. Três meses depois ainda sente a mesma azia no fundo do seu estômago, a mesma que sentiu ao ver aquela mulher que o amou com o máximo carinho partir, ele quando se lembra disto deixa sempre cair uma lágrima. Ela passada alguns meses talvez porque não aguentasse voltou! Entra no café mas não o vê, pergunta por ele a uma empregada. Fica a saber que se despediu e não deixou nenhum contacto. O número de telefone que ele lhe deu já não funciona, procurou-o no Facebook e não o encontrou. De modo que sai do café desconsolada e, após alguns dias a procurá-lo pelos lugares em que andaram, volta ao Brasil com uma desilusão. Nunca mais saberá nada dele, nunca mais voltará a vê-lo, mas ficará sempre com a melancólica recordação daquele amor de 10 dias.

(07/03/2013)
Joaquim Rodrigues


quarta-feira, 6 de março de 2013

" A VIDA"


"O METEORITO"

                                     

 Foi tudo muito rápido. Natália entrou na vida dele a uma velocidade estonteante. Deixou-o siderado, apaixonado, hipnotizado, cansado. No final, desapareceu como tinha chegado: depressa. Sempre a abrir. E deixou um rasto de destruição, com fragmentos espalhados por vários patamares da existência dele: no trabalho, em casa, no ginásio, no carro. Para todo o lado onde olhasse, ele lembrava-se dela e do que tinham vivido. Afinal, ela era tudo o que ele sempre desejara. Tudo o que ele sempre pensara quando pensava em mulheres ideia. Tudo o que ele despia com os olhos da imaginação sempre que suspirava por corpos escaldantes enrolados no corpo dele - a frase é pirosa, mas ele também pensava piroso. Pensava em forma de clichés: mulheres-polícia a algemarem-no a uma cama, hospedeiras de farda curta a servirem-lhe café, médicas de decote generoso a medirem-lhe a pulsação... E tudo o resto que vinha depois na cabeça dele. Naqueles dois meses, ela foi tudo isso. Ela fez tudo isso. E muito mais. Natália personificava o santo graal dos engates imaginários que aquela alma alguma vez tinha sonhado. Por vezes eram morenas, outras louras, uma ou outra ruiva. Por vezes pensava em colegas do trabalho, outras vezes na funcionária das Finanças que o tinha atendido, na empregada de balcão que lhe tinha servido o café, na diretora de serviço que só tinha visto uma vez, na condutora do carro ao lado que se tinha esfumado depois do semáforo, na cliente à frente na fila do supermercado. Nesse aspeto, ele era como todos os homens: quando idealizava sexo com alguma mulher, oscilava entre o fetiche de sempre, entalado até ao dia em que finalmente é resolvido, e o encontro casual, não programado, com uma estranha, que descamba em beijos e coito no elevador. Mas aquela loura em particular, que ele tinha conhecido num site de encontros, por quem tinha caído de quatro, que viraram (explodiu!) o mundo dele do avesso e que o fez ter vontade de mandar tudo à fava, aquela era de carne e osso e encarnava todo o desejo do mundo numa só pessoa. Até o facto de ela ser natural de Cheliabinsk, junto aos montes Urales, na Rússia, tal como Irina Sheik, a namorada de Cristiano Ronaldo, era visto como um sinal dos céus. Cada um vê o que quer, mas ele via uma deusa russa, de rosto perfeito, lábios carnudos, cabelo liso, pescoço delicado, pernas compridas, pés lindos, mamas do tamanho certo e rabo com um pouquinho de celulite... Tal como ele gostava. Natália era também boa conversadora, gostava de cerveja, tinha simpatizado com os amigos dele (que a adoravam, tanto quanto o invejavam a ele), sabia contar anedotas, dizia que tinha vontade de experimentar sexo com ele e outra mulher e sonhava com o dia em que teria filhos. Nos 62 dias (ele contou-os) que o romance galáctico durou, foram em vão as tentativas de encontrar defeitos ou pequenos detalhes de que não gostasse tanto. Ali não havia defeitos. Quer dizer, devia haver, mas ele não os tinha descoberto. Ainda. Se dúvidas houvesse que Natália era uma enviada do cosmo, elas desfizeram-se a 15 de fevereiro. No mesmo dia em que um meteorito de dez mil toneladas e 17 metros de diâmetro entrou na atmosfera terrestre e se desintegrou sobre Cheliabinsk, ela sumiu da vida dele. Assim, sem mais. Kaput! A onda de choque provocou 1200 feridos na região e o som infernal foi ouvido no Alasca, a sete mil quilômetros de distância. E até passou a ser noticia principal em todo mundo, do Brasil à China passando por Austrália. Em Portugal, não se ouviu, mas sentiu-se. E o ferido 1201 ainda hoje tem estilhaços no coração.

 (25/02/2013)
Joaquim Rodrigues:

"EU TE AMO" (HD) Joaquim Rodrigues


"HISTÓRIA ENCANTADA"

                                    

 Aconteceu como acontecem todas as coisas estranhas que mudam uma vida: inadvertidamente. Com efeito, foi uma surpresa e, apesar de casada, não estava preparada para lhe voltar as costas. Numa tarde que tinha livre, tão quente como se fosse verão, ela decidiu sentar-se num pequeno restaurante de praia, vazio, onde havia apenas uma mesa corrida sob um alpendre de palha. Ficava numa praiazinha esconsa e não havia senão o dono que fazia petiscos improváveis naquela tasquinha sem nome. Adorou a comida, o mar, a areia quente onde afundou os pés descalços. Voltou na semana seguinte e foi recebida com uma exclamação feliz que ele reservava às pessoas conhecidas. Serviu-lhe uma enorme travessa de peixe e ela pediu-lhe que lhe fizesse companhia, porque não queria estar sozinha. Ele encolheu os ombros, disse que sim, com muito prazer. Agora ela volta sempre que pode. Ele conquistou-a pela comida e pela graça como conta histórias encantadas. Diz que mergulha naquele mar em frente e conhece um mundo inteiro debaixo de água que as pessoas não imaginam. Permite um sorriso ténue no rosto grave quando lhe fala de catedrais esculpidas em rochas que ninguém suspeita e lhe revela as suas conversas com os peixes. Enfeitiçada com as suas fábulas, finge-se séria, pergunta-lhe mais pormenores desses diálogos com os peixes. Ele tem muitos, e muitas histórias, pode falar a tarde inteira e fazê-la esquecer-se da vida. Há um quarto nas traseiras, para onde vão. Ela navega num amor deslumbrado. Mas ele diz-lhe que ela não lhe pertence, que, um dia, deve voltar para a sua família. Quando será esse dia? Pergunta-lhe, surpreendida. Em breve, diz, quando já não precisares de mim. Ela jura-lhe que não o deixará, ele garante-lhe que sim. E realmente, um dia, o marido pede-lhe para chegar mais cedo a casa e, sem pedir satisfações, oferece-lhe flores, diz-lhe que a ama e que não seria capaz de a trocar por nada, nem por um mundo encantado ou uma cabana à beira-mar. Abraça-a e ela não adivinha como soube, porque não pode ter sabido, e, embora desolada, no dia seguinte vai à praia para se despedir do seu amor impossível e encontra só uma barraca abandonada, que não é o restaurante que conhece, e não há sinal dele, senão umas pegadas solitárias que se dirigem para o mar, sem regressarem. Ela faz um sorriso desconcertado, abana a cabeça, perplexa, pensa que não pode ter imaginado tudo... Já lá voltou e perguntou por ele a vários pescadores e teve sempre a mesma resposta: não há ali ninguém e a barraca está vazia há anos. No entanto, ele vive no seu coração, na sua memória, e ela sabe que os pescadores estão enganados.

 (06/01/2013)
Joaquim Rodrigues:

"BEIJA-ME" (HD) Joaquim Rodrigues