O meu blog: “histórias do coração” ele mostra a beleza e todas as maravilhas que existem em nossas vidas em todos nossos sentimentos tudo em forma encantadora de palavras que nos saem do meu coração, um coração que acredita na vida na felicidade de tudo que a vida nos reserva. O meu coração é um livro sobre o amor que vivem na minha alma. (Aqui encontramos poemas, música, e histórias da vida real) (Joaquim Rodrigues)
sábado, 6 de abril de 2013
"Um amor, para a internidade"
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| (Joaquim Rodrigues) |
Eu já conheço esse teu olhar triste.
E todas as saudades que sentes.
Nunca soube foi porque partiste.
Nem porque ainda me mentes.
Ninguém pode enganar o coração.
Ninguém consegue matar o amor.
Quem o fizer, sentirá a maldição.
Que o vai perseguir, até onde for.
Na vida, nem sempre devemos.
Querer ter razão em tudo.
No que sentimos ou fazemos.
Porque vai parecer, absurdo.
A onde tu queres ir, te seguirei.
De ti nunca estarei ausente.
Pois sinto que sempre voltarei.
Nesta saudade internamente.
Como tenho tanta certeza?
Não sei, não tenho explicação.
Mas quem te amou, como eu amei.
Nunca mais te tirará do coração.
Minha vida, foi feita para amar assim.
Meu corpo, e minha alma, não mente.
Sempre te guardarei dentro de mim.
Meu maior amor, um eterno presente.
(06/04/2013)
Joaquim Rodrigues
"Notalgias III"
Vai tomar um café ao fim da tarde, farta de estar em casa a remoer tristezas e fracassos. Sai para espairecer. Entra numa pastelaria, escolhe uma mesa afastada do bulício alegre de um grupo de jovens que ri alto. Hoje em dia não consegue estar muito tempo tranquila no seu canto, porque as pessoas reconhecem-na e vêm falar com ela.
No início era divertido, quando começou a ser conhecida pelas suas músicas que passavam na rádio, pelas entrevistas, os concertos, mas agora já não tem tanta graça. Enfim, faz parte da vida de artista, resigna-se, forçando um sorriso para os estudantes que já perceberam quem é e pasmam para ela com uma desconcertante impudência. Terminou recentemente uma relação caótica com um músico da sua banda e sente um imenso vazio. Mas não é dele que tem saudades, pois reconhece que foi um erro e está bastante aliviada por ter acabado.
O que a deixa angustiada é a consciência de que deixou o homem certo por um indigente moral e que o desprezou quando ele só merecia o melhor dela. Quer voltar para ele, pedir-lhe desculpa, ficar com ele para sempre, mas não acredita que a perdoe porque ela própria, se estivesse no lugar dele, não teria a nobreza de espírito suficiente para a perdoar. Não obstante, reconhece que ele merece uma satisfação e que terá de ir ao seu encontro porque um telefonema não é suficiente.
Espera sentada no carro que o bar feche e os últimos clientes se vão embora. Olha para o relógio, passam dez minutos das três da manhã. Finalmente, respira fundo, controla os nervos, sai do carro, atravessa a rua. Fica parada à entrada do bar, vendo-o sentado à mesa do costume, no canto à sua direita. Aguarda que lhe diga alguma coisa.
- Estava a pensar em ti, afirma ele.
-O quê?, pergunta.
A pensar se voltarias um dia.
- Nunca me fui embora, responde ela, na minha cabeça estive sempre aqui.
E nesse preciso instante compreende quão verdadeira é essa afirmação, "estive sempre aqui", pensa, mais saudosa do que imaginava.
Nota-lhe a sombra de um sorriso, uma desconfiança perpassando-lhe pela mente.
- Queres sentar-te? Convida-a.
Ela tira o casaco, senta-se. Ele serve-lhe uma bebida. Parece-lhe cansado, mas pode ser só a expressão grave, que não lhe é habitual. Mas depois ele descontrai-se um pouco e diz então.
- Conta lá por onde tens andado.
E uma esperança invade-lhe o coração e ela confessa de uma vez o arrependimento que a traz ali, a angústia que não a deixa dormir, e a saudade que a faz infeliz.
(11/09/2012)
Rodrigues Joaquim:
sexta-feira, 5 de abril de 2013
"Notalgias II"
- Onde moras? Perguntou-lhe uma vez.
Ele, sentado frente ao teclado, no palco ao fundo do bar, com um cigarro no canto da boca, os olhos semicerrados, respondeu-lhe que a música era a sua casa. Ela adorava aquele seu ar diletante, aquela atitude despreocupada com que pairava pela vida. Estão ligados pela música, juntou-os o dono do bar. Ela vivia com o dono do bar, que a ajudou, a apoiou, a amou. Mas partiu em digressão, deu a volta ao país, viveu num mundo encantado, desinteressou-se dele. Apaixonou-se pelo companheiro de viagem, pelos seus olhos cinzentos perdidos na música quando os seus dedos deslizam pelas teclas, com uma expressão etérea envolvida pelo fumo do cigarro no canto da boca. No entanto, ele não quer realmente saber dela. É encantador e as mulheres vêm e vão, passam por si como tudo o resto, sem um compromisso perene que o prenda para a vida. Tem um pequeno apartamento caótico onde só vai dormir, enfim, um buraco sujo, como ela diz. Ele encolhe os ombros, despreocupado, mas ela seria incapaz de viver ali, de modo que, normalmente fica ele em sua casa.
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| (Joaquim Rodrigues) |
(22/06/2012)
Rodrigues Joaquim:
"Tua Beleza"
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| (Joaquim Rodrigues) |
Tua beleza, é uma beleza sem par.
Faz de ti Rainha para o mundo ver.
Se tu olhas, ordenas com teu olhar.
A quem olhas jamais te pode esquecer.
Já que és tão bela tens direito a escolher.
De entre os belos o mais belo para amar.
E é o que fazes pois é esse o teu prazer.
Muito embora seja breve o seu reinar.
Se assim perdes o mais belo, sedutor.
Por eu ser feio, mesquinho, desengraçado.
Dou muitas, muitas graças ao Senhor.
Jamais tu me verás - eu não sou nada.
Não vê ninguém um coração cheio de amor.
E muito menos se for de um malfadado.
(05/04/2013)
Joaquim Rodrigues
quinta-feira, 4 de abril de 2013
"Nós os Dois"
De mãos dadas campo fora.
Nós corremos.
Nós vivemos.
Que belo instante o de agora.
Meu amor.
Minha senhora.
Só tu e eu, mais ninguém.
Que singela.
E que bela!
Para mim o maior bem.
É o de ter-te.
Pertencer-te
Preso a esse teu olhar.
Meu querer.
Se poder.
Para sempre assim ficar.
E morrer.
De prazer.
(04/04/2013)
Joaquim Rodrigues
"As Voltas do Destino"
Quando naquela Sexta as duas amigas se encontraram sós depois de o horário de trabalho ter chegado ao fim, voltaram a se questionarem o que já seria talvez a decima vez, pois a festa era nesse fim-de-semana.
- Vens ou não passar o fim-de-semana connosco? Questionou.
A pergunta da amiga era lógica, se ela jurara a pés juntos que a sua história com o Joaquim fazia parte do passado, não havia motivo para não querer ir passar aquele fim-de-semana fora só porque ele ia lá estar. Tinha duas hipóteses, ou mantinha-se fiel à mentira, e ai não havia desculpa para recusar o convite, ou então dizia a verdade e confessava a Marta que ainda estava apaixonada por ele. Teimosa por natureza, Rosa ficou pela primeira hipótese. Seria forte e iria passar aquele fim-de-semana com todo o grupo de amigos onde, por azar, se incluía Joaquim. A decisão custou-lhe caro. Andou a restante semana angustiada sem saber o que a esperava.
Será que ele ia com a namorada? Afinal, o que acontecera entre eles fora breve e fugaz como um dia de Sol no inverno. Duas pessoas que se tinham conhecido e sentido irresistivelmente atraídas uma pela outra e passado uma noite de amor. Uma só noite de amor, mas que Rosa jamais esqueceria até ao fim dos seus dias. Tinham-se amado em sua casa, ligeiramente entontecidos pelo vinho bebido ao jantar, mas ela nunca estivera tão consciente de que desejava aquele homem. Que queria que ele tocasse no seu corpo, a acariciasse como a brisa da tarde, a beijasse com os lábios carnudos que tão facilmente sorriam como ficavam sérios. Gostava do seu corpo firme, da sua pele morena, dos seus olhos de um castanho luminoso, e sentia que também ele a desejava. E se duvidas existissem na sua mente ter-se-ia dissipado mal entrou no apartamento, quando ele lhe roubou um beijo que fez o seu coração bater mais depressa e lhe roubou o ar. A partir daí caíram nos braços um do outro, despiram-se com ansia, misturaram as línguas e as pernas, ele devassou com os lábios o seu corpo e ela estremecera de paixão e prazer quando ele a penetrara docemente, olhando-a nos olhos, sussurrando-lhe palavras ternas ao ouvido que ela jamais esqueceria.
Depois, moveram-se em compasso, sentindo cada pequena sensação de prazer e a volúpia a aumentar como uma onda até ao clímax. Dormiram aninhados nos braços um do outro e Rosa permitiu-se acreditar que assim seria para sempre.
Porém, de manha, escutou a sua voz vinda da sala, a falar ao telemóvel, e ouviu as palavras dele.
- Amor, desculpa não ter avisado, mas fui sair com o António ontem à noite e fiquei a dormir em casa dele.
Deitada na cama, Rosa sentiu que todo o seu mundo ruía. As lágrimas começaram a cair pelo seu rosto e foi assim que Joaquim a encontrou quando chegou ao quarto.
- Não digas nada e sai de minha casa, disse-lhe.
Joaquim não se atreveu a defender-se, mas a forma triste e apaixonada como a olhou antes de deixar a sua casa entrou direta ao seu coração. Aquilo acontecera há duas semanas atrás. Desde então, nunca mais vira Joaquim, mas foi ele a primeira pessoa com quem se deparou quando entrou na imensa casa de Marta naquele fim-de-semana.
Falaram-se claramente constrangidos, mas a química estava lá? Quando os seus olhos se encontravam, prendiam-se um no outro de forma irresistível. De tal forma que foram apanhados desprevenidos por uma voz feminina a seu lado.
- Não me apresentas? Rosa estremeceu.
Era a namorada de Joaquim. Sabia que aquilo podia acontecer, mas na verdade não estava preparada. A outra deve ter lido no seu rosto o desconforto, porque foi irônica quando disse.
- É um prazer conhece-la.
Arrastando depois um atarantado Joaquim para fora da sala. Todavia, do que Rosa se apercebeu é que era impossível esconder o que sentiam um pelo outro. Os seus olhos atraiam-se irresistivelmente e, quando isso não acontecia, apercebia-se que Joaquim estava calado, pensativo, chegando a responder com alguma brusquidão à namorada, que parecia decidida a trata-lo como um cachorro de trela.
No final dessa noite, Rosa sentiu que precisava de paz e foi até à varanda. E eis que Joaquim também lá estava. Primeiro olharam-se, em silêncio, o coração a querer saltar do peito, depois ele disse.
- Sabes Rosa me desculpa, eu nunca mais consegui-te esquecer desde aquele dia, tenho pensado em ti todos estes meus dias e noites que. Mas não pode dizer mais nada, porque nisto a sua namorada surgiu na varanda. Acusou-o de traição e a ela de uma sem vergonha. Rosa ficou chocada, sem reação. Por fim, a outra obrigou Joaquim a tomar uma decisão ali, naquele instante.
- Mosta aqui se és homem, e diz com quem queres ficar, comigo ou com ela?
Para espanto de Rosa, Joaquim não hesitou e, olhando-a nos olhos, disse.
- Com a Rosa.
(30/11/2013)
Rodrigues Joaquim:
- Vens ou não passar o fim-de-semana connosco? Questionou.
A pergunta da amiga era lógica, se ela jurara a pés juntos que a sua história com o Joaquim fazia parte do passado, não havia motivo para não querer ir passar aquele fim-de-semana fora só porque ele ia lá estar. Tinha duas hipóteses, ou mantinha-se fiel à mentira, e ai não havia desculpa para recusar o convite, ou então dizia a verdade e confessava a Marta que ainda estava apaixonada por ele. Teimosa por natureza, Rosa ficou pela primeira hipótese. Seria forte e iria passar aquele fim-de-semana com todo o grupo de amigos onde, por azar, se incluía Joaquim. A decisão custou-lhe caro. Andou a restante semana angustiada sem saber o que a esperava.
Será que ele ia com a namorada? Afinal, o que acontecera entre eles fora breve e fugaz como um dia de Sol no inverno. Duas pessoas que se tinham conhecido e sentido irresistivelmente atraídas uma pela outra e passado uma noite de amor. Uma só noite de amor, mas que Rosa jamais esqueceria até ao fim dos seus dias. Tinham-se amado em sua casa, ligeiramente entontecidos pelo vinho bebido ao jantar, mas ela nunca estivera tão consciente de que desejava aquele homem. Que queria que ele tocasse no seu corpo, a acariciasse como a brisa da tarde, a beijasse com os lábios carnudos que tão facilmente sorriam como ficavam sérios. Gostava do seu corpo firme, da sua pele morena, dos seus olhos de um castanho luminoso, e sentia que também ele a desejava. E se duvidas existissem na sua mente ter-se-ia dissipado mal entrou no apartamento, quando ele lhe roubou um beijo que fez o seu coração bater mais depressa e lhe roubou o ar. A partir daí caíram nos braços um do outro, despiram-se com ansia, misturaram as línguas e as pernas, ele devassou com os lábios o seu corpo e ela estremecera de paixão e prazer quando ele a penetrara docemente, olhando-a nos olhos, sussurrando-lhe palavras ternas ao ouvido que ela jamais esqueceria.
Depois, moveram-se em compasso, sentindo cada pequena sensação de prazer e a volúpia a aumentar como uma onda até ao clímax. Dormiram aninhados nos braços um do outro e Rosa permitiu-se acreditar que assim seria para sempre.
Porém, de manha, escutou a sua voz vinda da sala, a falar ao telemóvel, e ouviu as palavras dele.
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| (Joaquim Rodrigues) |
Deitada na cama, Rosa sentiu que todo o seu mundo ruía. As lágrimas começaram a cair pelo seu rosto e foi assim que Joaquim a encontrou quando chegou ao quarto.
- Não digas nada e sai de minha casa, disse-lhe.
Joaquim não se atreveu a defender-se, mas a forma triste e apaixonada como a olhou antes de deixar a sua casa entrou direta ao seu coração. Aquilo acontecera há duas semanas atrás. Desde então, nunca mais vira Joaquim, mas foi ele a primeira pessoa com quem se deparou quando entrou na imensa casa de Marta naquele fim-de-semana.
Falaram-se claramente constrangidos, mas a química estava lá? Quando os seus olhos se encontravam, prendiam-se um no outro de forma irresistível. De tal forma que foram apanhados desprevenidos por uma voz feminina a seu lado.
- Não me apresentas? Rosa estremeceu.
Era a namorada de Joaquim. Sabia que aquilo podia acontecer, mas na verdade não estava preparada. A outra deve ter lido no seu rosto o desconforto, porque foi irônica quando disse.
- É um prazer conhece-la.
Arrastando depois um atarantado Joaquim para fora da sala. Todavia, do que Rosa se apercebeu é que era impossível esconder o que sentiam um pelo outro. Os seus olhos atraiam-se irresistivelmente e, quando isso não acontecia, apercebia-se que Joaquim estava calado, pensativo, chegando a responder com alguma brusquidão à namorada, que parecia decidida a trata-lo como um cachorro de trela.
No final dessa noite, Rosa sentiu que precisava de paz e foi até à varanda. E eis que Joaquim também lá estava. Primeiro olharam-se, em silêncio, o coração a querer saltar do peito, depois ele disse.
- Sabes Rosa me desculpa, eu nunca mais consegui-te esquecer desde aquele dia, tenho pensado em ti todos estes meus dias e noites que. Mas não pode dizer mais nada, porque nisto a sua namorada surgiu na varanda. Acusou-o de traição e a ela de uma sem vergonha. Rosa ficou chocada, sem reação. Por fim, a outra obrigou Joaquim a tomar uma decisão ali, naquele instante.
- Mosta aqui se és homem, e diz com quem queres ficar, comigo ou com ela?
Para espanto de Rosa, Joaquim não hesitou e, olhando-a nos olhos, disse.
- Com a Rosa.
(30/11/2013)
Rodrigues Joaquim:
"Obrigado"
O meu muito Obrigado a todos os visitantes do meu blog.
(Amor e Carinho).
Reparei que são visitantes, dos cinco continentes que!
Passam por aqui.
Fico muito contente por pessoas do Mundo inteiro já terem!
Passado por aqui.
São amigos e amigas, conhecidos e desconhecidos.
Passam por aqui.
Doutores e doutoras, professores, e professoras.
Passam por aqui.
Homens e mulheres, novos e velhos, e de todas as idades.
Passam por aqui.
De várias classes sociais e raças, familiares, e muito mais.
Passam por aqui.
Comentadores, e apostadores, com sentido ou sem sentido de humor.
Passam por aqui.
Gente igual a todos nós, pobres e ricos, e muita vez aflitos esses também.
Passam por aqui.
Apaixonadas, apaixonados, amadas e amados, trazendo muito ou nada.
Passam por aqui.
Sivernaltas e astronautas, e muitas maltas, a todos o meu muito obrigado.
Por passarem por aqui.
Por me ajudarem! Todos juntos fazemos do planeta um “amor e carinho”.
Passem por aqui.
Nunca deixem então de se lembrarem de tudo isso, fiquem à vontade sempre.
Passem por aqui.
(04/04/2013)
Joaquim Rodrigues
"Vem Sentar-te Comigo na Lua"
"Vem sentar-te comigo na Lua", desafiou-a ele em pensamento, e o convite não podia ser mais tentador. Por isso, imaginou que ela lhe respondeu que sim, eu vou, porque, na realidade, ela iria a qualquer lado, desde que fosse com ele. Sentaram-se num banco à beira da Lua, cada um na sua ponta, separados por outras pessoas. A luz branca refletia-se nos seus rostos, a cidade à volta deles girava apressada e barulhenta, agitando-se impaciente na ânsia do regresso a casa ao fim do dia. Mas era como se, momentaneamente, eles os dois estivessem fora do mundo, a comunicar um com o outro, por sinais, indiferentes a tudo o mais.
Ele surpreendeu-se a observá-la quando a descobriu por acaso, ali na paragem do autocarro. Ficou logo preso a ela, a adivinhar o seu nome, a calcular a idade, a imaginar onde trabalharia. Inicialmente, ela não pareceu reparar nele, mas depois houve um momento em que os seus olhos se encontraram e ela demorou um ou dois segundos a mais a desviar a atenção, como que tomando nota de que ele estava ali.
Ele sentiu-se encorajado a abordá-la, pensou em aproximar-se e fazer um qualquer comentário ocasional, dizer uma piada, mas não lhe saiu nada, pelo menos nada que servisse como princípio de conversa e que não o fizesse parecer um perfeito idiota.
Trocaram olhares furtivos por entre as cabeças de permeio, demonstrando interesse um pelo outro, mas sem se atreverem a mais, pois, afinal de contas, eram apenas dois desconhecidos na multidão.
Ele esperou que ela lhe sorrisse e ela esboçou um sorriso tímido logo depois de os seus olhos voltarem a cruzar-se, um instante depois de desviar o olhar.
"Tenho de a conhecer, pensou ele", decidindo-se e enchendo-se de coragem, pronto para fazer figura de parvo se tivesse de a fazer, arriscando-se, mesmo que ela rejeitasse a sua abordagem.
Mas então o autocarro chegou e o encanto quebrou-se. Ela levantou-se, as outras pessoas levantaram-se, ele levantou-se, sem ter possibilidade de se aproximar, travado por uma parede humana. As portas do autocarro abriram-se com um suspiro quente. Já vinha cheio. Ela estava à frente e entrou, juntamente com outros dois passageiros, mas não restou lugar para mais ninguém. Logo a seguir, as portas fecharam-se e eles ficaram ali suspensos um no outro, separados pelo vidro, ao alcance de um braço, de uma mão. Ela sorriu-lhe abertamente, ele sorriu-lhe, o autocarro retomou a marcha, ela partiu, ele ficou.
Ficou a odiar-se por ter deixado escapar a sua oportunidade, a pensar ainda na frase que pretendia dizer-lhe se tivesse tido oportunidade. - "Vem sentar-te comigo na Lua".
(04/03/2013)
Joaquim Rodrigues
Ele surpreendeu-se a observá-la quando a descobriu por acaso, ali na paragem do autocarro. Ficou logo preso a ela, a adivinhar o seu nome, a calcular a idade, a imaginar onde trabalharia. Inicialmente, ela não pareceu reparar nele, mas depois houve um momento em que os seus olhos se encontraram e ela demorou um ou dois segundos a mais a desviar a atenção, como que tomando nota de que ele estava ali.
Ele sentiu-se encorajado a abordá-la, pensou em aproximar-se e fazer um qualquer comentário ocasional, dizer uma piada, mas não lhe saiu nada, pelo menos nada que servisse como princípio de conversa e que não o fizesse parecer um perfeito idiota.
Trocaram olhares furtivos por entre as cabeças de permeio, demonstrando interesse um pelo outro, mas sem se atreverem a mais, pois, afinal de contas, eram apenas dois desconhecidos na multidão.
Ele esperou que ela lhe sorrisse e ela esboçou um sorriso tímido logo depois de os seus olhos voltarem a cruzar-se, um instante depois de desviar o olhar.
"Tenho de a conhecer, pensou ele", decidindo-se e enchendo-se de coragem, pronto para fazer figura de parvo se tivesse de a fazer, arriscando-se, mesmo que ela rejeitasse a sua abordagem.
Mas então o autocarro chegou e o encanto quebrou-se. Ela levantou-se, as outras pessoas levantaram-se, ele levantou-se, sem ter possibilidade de se aproximar, travado por uma parede humana. As portas do autocarro abriram-se com um suspiro quente. Já vinha cheio. Ela estava à frente e entrou, juntamente com outros dois passageiros, mas não restou lugar para mais ninguém. Logo a seguir, as portas fecharam-se e eles ficaram ali suspensos um no outro, separados pelo vidro, ao alcance de um braço, de uma mão. Ela sorriu-lhe abertamente, ele sorriu-lhe, o autocarro retomou a marcha, ela partiu, ele ficou.
Ficou a odiar-se por ter deixado escapar a sua oportunidade, a pensar ainda na frase que pretendia dizer-lhe se tivesse tido oportunidade. - "Vem sentar-te comigo na Lua".
(04/03/2013)
Joaquim Rodrigues
quarta-feira, 3 de abril de 2013
"Nostalgias,I"
No crepúsculo do bar, cheio a uma hora tardia, os focos de luz caem sobre a banda que atua no palco ao fundo da sala. Sentado a uma mesa num canto discreto, ele fuma um cigarro e observa a sala satisfeito com o resultado de um longo trabalho. Abriu o bar há quase cinco anos e agora é um sucesso. Mas o pensamento foge-lhe para uma recordação melancólica, como lhe acontece recorrentemente. Lembra-se dela, parece que a está a ver ali à frente a cantar, com a sala caída num silêncio rendido, o fôlego suspenso numa emoção, as almas enlevadas, prestes a rebentar em palmas e gritos de entusiasmada aprovação ao extinguir-se o último som que lhe sai do coração.
Recorda-a a servir às mesas e atrás do bar: É bonita, tem um sorriso tímido, faz o seu trabalho sem se fazer notar, mas se
m uma falha.
Lembra-se de entrar no restaurante durante a tarde, a uma hora em que está fechado ao público, e surpreendê-la sozinha no palco, sentada num banco alto a tocar a guitarra e a cantar de olhos fechados para a sala vazia. Ele fica ali parado de pé, espantado, a pensar que nunca ouviu uma voz assim. A música acaba, ela abre os olhos e fica embaraçada ao perceber que ele estava a ouvi-la sem que tivesse dado pela sua chegada.
Convence-a a cantar em público, procura músicos para a acompanharem, ajuda-a a começar a nova carreira, apaixona-se. Ela diz que o ama, que ele é tudo para si. Enche a sala todas as semanas, com a sua voz, com gente que vem para a ouvir. Grava um disco, passa na rádio, dá concertos. Parte em digressão pelo país e telefona-lhe um dia, ele lembra-se desse telefonema como se fosse hoje, com a mesma angústia.
Diz-lhe que já não volta para ele. Soube que ela vivia com um dos músicos da banda. Ela escreve-lhe uns mails dispersos, sempre que chega a uma terra nova. Ele nunca lhe responde e os mails são cada vez mais espaçados no tempo, até findarem definitivamente. Ao fim da noite, depois de terem saído todos, só lhe resta fechar e ir para casa.
Mas fica ainda um pouco a acabar a bebida, a fumar um cigarro, sentado no crepúsculo, à mesa do canto. À sua esquerda, a luz da rua entra pelos vidros da porta. Ela está ali parada a olhar para ele, meio rosto iluminado pela claridade de fora.
- Estava a pensar em ti, diz ele, sem se preocupar em fingir que não quer saber dela.
- O quê?
- A pensar se voltarias um dia.
- Nunca me fui embora, responde ela, na minha cabeça estive sempre aqui.
Passa por ele um sorriso fugaz, pergunta-lhe.
- Não te queres sentar?
Ela tira o casaco enquanto ele lhe serve uma bebida da garrafa em cima da mesa, e pergunta.
- Então, conta lá por onde tens andado?.
((12/05/2013)
Rodrigues Joaquim:
Lembra-se de entrar no restaurante durante a tarde, a uma hora em que está fechado ao público, e surpreendê-la sozinha no palco, sentada num banco alto a tocar a guitarra e a cantar de olhos fechados para a sala vazia. Ele fica ali parado de pé, espantado, a pensar que nunca ouviu uma voz assim. A música acaba, ela abre os olhos e fica embaraçada ao perceber que ele estava a ouvi-la sem que tivesse dado pela sua chegada.
Convence-a a cantar em público, procura músicos para a acompanharem, ajuda-a a começar a nova carreira, apaixona-se. Ela diz que o ama, que ele é tudo para si. Enche a sala todas as semanas, com a sua voz, com gente que vem para a ouvir. Grava um disco, passa na rádio, dá concertos. Parte em digressão pelo país e telefona-lhe um dia, ele lembra-se desse telefonema como se fosse hoje, com a mesma angústia.
Diz-lhe que já não volta para ele. Soube que ela vivia com um dos músicos da banda. Ela escreve-lhe uns mails dispersos, sempre que chega a uma terra nova. Ele nunca lhe responde e os mails são cada vez mais espaçados no tempo, até findarem definitivamente. Ao fim da noite, depois de terem saído todos, só lhe resta fechar e ir para casa.
Mas fica ainda um pouco a acabar a bebida, a fumar um cigarro, sentado no crepúsculo, à mesa do canto. À sua esquerda, a luz da rua entra pelos vidros da porta. Ela está ali parada a olhar para ele, meio rosto iluminado pela claridade de fora.
- Estava a pensar em ti, diz ele, sem se preocupar em fingir que não quer saber dela.
- O quê?
- A pensar se voltarias um dia.
- Nunca me fui embora, responde ela, na minha cabeça estive sempre aqui.
Passa por ele um sorriso fugaz, pergunta-lhe.
- Não te queres sentar?
Ela tira o casaco enquanto ele lhe serve uma bebida da garrafa em cima da mesa, e pergunta.
- Então, conta lá por onde tens andado?.
((12/05/2013)
Rodrigues Joaquim:
"Vos Amo, Mulheres"
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| (Joaquim Rodrigues) |
Vinde, me encantar e fazer feliz.
Onde estiver sempre vos amarei.
Seja amiga, amante ou meretriz.
A alma por guarida eu lhes darei.
Mesmo quando a dor me de-lacerar.
O corpo feito escravo do prazer.
Meus pecados poderão até expiar.
Um dia se o criador assim o quiser.
Livre, o meu amor vos entrego.
Hoje, como ontem, enquanto viver.
Eleitas do coração sois, não nego.
Renascer em cada amanhecer.
E amar loucamente como um cego.
Será sempre a minha razão de viver.
(28/07/2012)
Joaquim Rodrigues
"Um Dia de Chuva"
Sob as nuvens pesadas de um dia de chuva, e com o Porto por baixo do miradouro perene do velho castelo, ela fuma um cigarro, de olhos postos na imensidão do casario. Ao lado, uma boca-de-fogo, já sem outro uso que o de lembrar a História antiga, apoia-se na muralha, apontando ao céu. E ela ali sozinha com um cigarro fumegando na ponta dos dedos, uma vaga nostalgia pairando no espírito. Ao longe, uma trovoada abafa o rumor da cidade, anunciando uma tempestade iminente. E ela ali à espera. Há quanto tempo não chove, pensa, e logo hoje.
Vê o relógio, olha em redor, impacienta-se. Não tem um chapéu-de-chuva, nem lugar à vista onde se abrigar. E não pode sair dali, não lhe convém, está decidida a ficar. Na carteira, o telemóvel inútil não lhe serve de nada. Ficou sem bateria, reparou há pouco, furiosa por se ter esquecido do carregar. Marcou encontro com ele aqui, onde costumavam vir há tanto tempo. Vem-lhe à memória os dois ali num dia igual a este. Separaram-se por uma coisa que agora lhe parece de nada, uma zanga diluída no tempo. Mas separaram-se, deixaram de falar, continuaram a vida de costas voltadas, impedidos pelo orgulho.
Vai olhando para o relógio, ansiosa, perguntando-se se ele terá desistido. Quando lhe telefonou, há dois dias, movida por um impulso, disse-lhe que gostava de o ver. Ele está metido no trânsito, preocupado com as horas. Liga-lhe, mas ela não atende. Vai a pensar no telefonema dela, há dois dias. Na altura achou que talvez já não valesse a pena, mas agora tem saudades, quer revê-la. Começa a chover, um aguaceiro tremendo, em minutos a água corre pela rua, por entre os carros, e o trânsito pára num protesto de buzinas. Ela está à chuva, quer resistir, mas percebe que não pode continuar ali. De qualquer modo, a hora marcada passou há muito. Desiludida, decide ir-se embora. Ele chega segundos depois de ela ter saído a correr. Sai do carro, abre o chapéu-de-chuva e procura-a por todo o lado, mas não a encontra. Volta para o carro, fica na dúvida se ela terá vindo mesmo ao encontro. Telefona-lhe, não atende. Talvez seja melhor assim, pensa. Ela refugia-se numa pastelaria, contrariada, mas a pensar que ele se atrasou, que lhe telefonará mais tarde. Porém, os dias passam e ele não chega a ligar-lhe. Ele pensou que se ela tinha o telefone desligado é porque não queria falar, mudara de ideias, provavelmente. Ela pensa que se ele não ligou é porque não foi ao encontro. E não voltam a falar-se. Anos mais tarde, quem sabe, talvez se vejam por acaso, falem do encontro falhado, percebam o que aconteceu, mas será demasiado tarde.
(03/04/2013)
Rodrigues Joaquim:
Vê o relógio, olha em redor, impacienta-se. Não tem um chapéu-de-chuva, nem lugar à vista onde se abrigar. E não pode sair dali, não lhe convém, está decidida a ficar. Na carteira, o telemóvel inútil não lhe serve de nada. Ficou sem bateria, reparou há pouco, furiosa por se ter esquecido do carregar. Marcou encontro com ele aqui, onde costumavam vir há tanto tempo. Vem-lhe à memória os dois ali num dia igual a este. Separaram-se por uma coisa que agora lhe parece de nada, uma zanga diluída no tempo. Mas separaram-se, deixaram de falar, continuaram a vida de costas voltadas, impedidos pelo orgulho.
Vai olhando para o relógio, ansiosa, perguntando-se se ele terá desistido. Quando lhe telefonou, há dois dias, movida por um impulso, disse-lhe que gostava de o ver. Ele está metido no trânsito, preocupado com as horas. Liga-lhe, mas ela não atende. Vai a pensar no telefonema dela, há dois dias. Na altura achou que talvez já não valesse a pena, mas agora tem saudades, quer revê-la. Começa a chover, um aguaceiro tremendo, em minutos a água corre pela rua, por entre os carros, e o trânsito pára num protesto de buzinas. Ela está à chuva, quer resistir, mas percebe que não pode continuar ali. De qualquer modo, a hora marcada passou há muito. Desiludida, decide ir-se embora. Ele chega segundos depois de ela ter saído a correr. Sai do carro, abre o chapéu-de-chuva e procura-a por todo o lado, mas não a encontra. Volta para o carro, fica na dúvida se ela terá vindo mesmo ao encontro. Telefona-lhe, não atende. Talvez seja melhor assim, pensa. Ela refugia-se numa pastelaria, contrariada, mas a pensar que ele se atrasou, que lhe telefonará mais tarde. Porém, os dias passam e ele não chega a ligar-lhe. Ele pensou que se ela tinha o telefone desligado é porque não queria falar, mudara de ideias, provavelmente. Ela pensa que se ele não ligou é porque não foi ao encontro. E não voltam a falar-se. Anos mais tarde, quem sabe, talvez se vejam por acaso, falem do encontro falhado, percebam o que aconteceu, mas será demasiado tarde.
(03/04/2013)
Rodrigues Joaquim:
"Coração"
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| (Joaquim Rodrigues) |
Eu penso constantemente.
E não encontro a razão.
Porque o Senhor pôs na gente.
A pulsar um coração.
Para amar e para viver.
Para ter desespero e dor.
E depois disto morrer!
Ó Senhor, porquê Senhor?
Porque existimos, meu Deus?
Porque viemos ao mundo?
Para sermos brinquedos teus?
E este nosso sofrimento.
Para que é tão profundo?
Ó meu Deus,como lamento!
(03/04/2013)
Joaquim Rodrigues
"Vontade de um Abraço Teu"
De repente, uma bátega medonha cai no meio do Verão. Tremendos riachos correm livremente, sobem os passeios, provocam uma desordem de carros que entope o trânsito. E no entanto faz tanto calor que uma neblina vaporosa se levanta, cobrindo a cidade molhada, e as pessoas vão pelas ruas como se caminhassem dentro de uma nuvem baixa. O dia esmorece numa melancolia pesada de tristes cinzentos e rostos fechados, ocultos nos guarda-chuvas que reaparecem fora de época.
Ela vem caminhando no crepúsculo. Leva as mãos enfiadas nos bolsos de uma gabardina resgatada à última da hora do fundo do armário, a gola levantada, o passo acelerado. Atravessa a rua, esgueira-se por entre as escovas intermitentes dos para-brisas, pelos faróis prematuros, pelas buzinas exasperadas. Só quer regressar a casa, tomar um banho, descansar.Tem uma visão turva da rua, das lentes molhadas pela humildade, do assomo de uma lágrima indesejada que vem com a desilusão. Tira os óculos, guarda-os na carteira.
Tinha um encontro marcado, mas ele não apareceu, não disse nada, limitou-se a faltar. Ligou-lhe do telemóvel, enviou-lhe mensagens sem resposta. Esperou uma hora e meia, dois cafés, um bolo de arroz que mal comeu, esboroado aos bocadinhos com os dedos distraídos enquanto os olhos se fixavam na porta, desviados ocasionalmente para o gritinho de uma criança, o sorriso de um casal, o estrondo de uma bandeja no chão.
Entra em casa, tira a gabardina, vai para o quarto, livra-se dos sapatos elegantes de salto fino com um solavanco, despe o vestido, vai para a casa de banho, põe a água a correr, apanha o cabelo, toma um duche morno. Volta ao quarto, verifica o telemóvel enquanto se seca. Ele não telefonou, não disse nada. Põe a toalha de lado e, em vez de se vestir, deita-se em cima da cama. Está tanto calor, pensa, antes de adormecer.
A campainha desperta-a no escuro. Abre os olhos, acende a luz, tenta saber as horas, perdida no tempo, mas não tem relógio. A campainha insiste. Embrulha-se num roupão e vai acudir à porta. Abre-a e ali está ele, com uma expressão comprometida. Sente um alívio que não demonstra, ele perde-se numa sucessão de desastres que tem para se justificar.
- Até fiquei sem bateria no telemóvel, diz, foi um dia para esquecer. Perdoas-me?
- Perdoo! Responde ela.
Larga o roupão ao puxá-lo para dentro, revelando-se, fecha a porta, deixa-se abraçar por dentro do roupão.
- Mas não repitas, avisa-o.
- Não, promete ele.
- Pensaste que te tinha deixado? Pergunta-lhe depois.
- Não, responde-lhe, esquivando-se ao desgosto que teve.
- Só consegui pensar na vontade que tinha de um abraço teu.
(05/05/2012)
Rodrigues Joaquim:
"Desespero"
Por te amar eu desespero.
E também por não te amar.
Não sei, não sei o que quero!
Só Deus me pode ajudar.
Talvez eu quizesse ter-te.
Para sempre à minha beira.
Tua beleza sorver-te.
Toda a vida, a vida inteira!
E que tu também me desses.
Teu amor, para mim somente.
Que, como eu, me quezesses.
Mas como não pode ser.
Meu coração sofre e sente.
Que só lhe resta esquecer.
(03/04/2013)
Joaquim Rodrigues
terça-feira, 2 de abril de 2013
" Eu Sozinho"
Estou no meu quarto.
Sozinho, estou sentado.
Olho em meu redor.
Estou com frio, arrepiado!
Olho e vejo uma janela.
Que por ela entra, uma luz.
Que me faz ver tanta tralha.
Uma luz terna, velada.
Vejo uma cadeira de palha.
Uma estante com cds.
E alguns, dvds.
Uma música encantada
Um terno de pele.
Uma almofada.
Um quadro original .
Um aquecedor.
Um espelho de cristal.
Uma mesa um televisor.
Uma mesa um televisor.
Uns óculos, um relógio.
Um pele vermelha tribal,
Um telefone botões.
Meus livros, o meu amor.
E uma foto, recordações.
Um rádio, a jarra e a flor.
O meu quarto é o meu mundo.
Meus tesouros, meus amigos.
Aqui não há inimigos.
Todos nós somos mendigos.
(02/04/2013)
Joaquim Rodrigues
"Onde Vais Passar o Natal?"
Ali estão os dois, sentados frente a frente, separados pela distância cautelosa de uma mesa de permeio. Ele não estende o braço para agarrar a mão dela como antigamente. Ela não faz nada para o incentivar. Observam-se apenas, entrecortando o silêncio com alguns, espaçados, comentários de circunstância, como se não se conhecessem intimamente, não tivessem tido uma relação, não tivessem feito amor numa outra vida.
Sentem-se dois estranhos acabados de se conhecer. Tudo o que foram juntos parece-lhes que se passou há uma eternidade. E no entanto, bastou-lhes reencontrarem-se para se reconhecerem.
Ele ainda se lembra do perfume dela, dos seus olhos; ela ainda sabe de cor todos os traços do rosto dele; ambos conhecem as particularidades um do outro: a forma como se riem, o que os faz rir, o que gostam e o que não gostam, as expressões que usam, os comentários que faziam e que tinham um significado particular, só deles. Sentem-se como desconhecidos que sabem tudo um do outro.
Pediram cafés, o empregado vem com a bandeja e serve-os, com açúcar para ela, com adoçante para ele. O empregado retira-se e eles trocam os pacotinhos com um sorriso cúmplice. Baixam os olhos enquanto mexem o café, ele demora-se um pouco mais, ela observa-o atenta aos pormenores, estuda o silêncio dele, na ânsia de lhe ler os pensamentos. Ele levanta os olhos e sorri-lhe, um sorriso aberto que dissipa uma nuvem. Ela retribui-lhe um rosto iluminado. Começam a falar com a alegria de sempre, abandonando a cautela, sem darem pelo tempo que pára, uma, duas horas seguidas, evitando tocar no que os separou.
Divertem-se, entendem-se com facilidade, mas a vida não parou e já não estão no mesmo ponto em que ficaram. Separaram-se, de facto, e parece-lhes inverosímil que um dia tivessem tido a certeza inabalável de que nada os poderia afastar um do outro. E quando voltam a olhar para o relógio e regressam à terra, quando comentam.
- Ui, é tão tarde, tenho de ir.
- Pois, eu também.
O sorriso esbate-se nos seus lábios e ambos sentem a nostalgia de um tempo que não se repete, de um amor incondicional que ficou pelo caminho, como tantos outros amores jurados com alma e coração.
Despedem-se com um abraço apertado, mas não combinam outro encontro.
- Foi bom rever-te, diz ele.
Ela fecha os olhos um segundo, enquanto assente com a cabeça.
- Também gostei muito, afirma.
Ele segura-lhe a mão como antigamente, sorriem, ela recua um passo, as mãos largam-se devagar, ela faz uma expressão engraçada, triste, que quer dizer é a vida, ele imita-a com um encolher de ombros exagerado, e partem, cada um para seu lado, perguntando-se se vão repetir em breve.
De repente ele lembrasse vira-se rápido e pergunta.
- Onde vais passar o Natal?
- Em minha casa sozinha.
- Não vais não! Eu vou passar contigo queres?
E ela caminhando na sua direção com um sorriso triunfante responde.
- Sim, claro que quero.
(13/12/2012)
Joaquim Rodrigues:
"Caminho Triste na Solidão"
Preciso de cuidar mais de mim.
Sinto-me cansado de mais.
Leio de mais, escrevo demais.
Ouço demais, e vejo demais.
Estou parado demais.
Estou recebendo demais.
Recebo mais, do que mereço receber.
O céu parece demasiado azul! Azul demais.
A música é mais triste!
Do que os tristes mais precisam.
Deixem-me sair daqui.
Porque a única coisa que sei fazer é sentir.
Preciso que me ensinem, a enganar-me.
Preciso que me ensinem!
A interromper a tristeza.
Sinto que vivo demais, e durmo de menos.
Acordo para acordar os outros.
É como se a luz me acompanhasse.
É como o sol quando nasce.
Viesse propositadamente, acordar-me.
Estou sozinho demais.
Nas minhas estrelas, não há noite nem amor.
Tenho as mãos vazias, viradas para o Céu.
Como se a lua, as tivesse recebido.
Como tivessem lá ficado.
Encharcadas de tinta, da escuridão.
Continuo minha caminhada sozinho!.
Levo comigo a tristeza, a solidão!
(02/04/2013)
Joaquim Rodrigues
segunda-feira, 1 de abril de 2013
" O Sr. Metódico"
À hora de almoço, ele sai do escritório e vai pelo bulício da rua, atravessando solitário pelas correntes de transeuntes, imune à confusão da cidade. Não pensa em nada, cumpre apenas a sua rotina. Entra numa papelaria e dirige-se ao corredor das revistas e dos jornais para comprar qualquer coisa para ler durante o almoço, no restaurante do costume, ali ao lado. Agarra no jornal de sempre sem olhar para os títulos, distrai-se ainda a ver as capas das revistas, como faz todos os dias, mas, como também acontece todos os dias, acaba por não se decidir a comprar nenhuma. Desiste das revistas e aproxima-se do balcão à entrada da loja para pagar o jornal. A sua vida é uma sucessão de acontecimentos que se repetem ao longo da semana sem novidade.
Vive sozinho, nunca casou, sabe que não tem uma existência emocionante mas tem a versão a tudo o que interfere com a sua normalidade. No escritório é metódico e preza as coisas feitas a tempo e horas. Os chefes confiam nele por ser trabalhador e não falhar, os colegas consideram-no um chato, ele prefere pensar que é uma pessoa séria, afável mas inflexível nos prazos, exigente com todas as vírgulas.
Sentada na beira de um banco alto, com um pé no chão e o outro apoiado na travessa do banco, ela vai atendendo as pessoas, recebendo o dinheiro, devolvendo o troco. Faz aquilo com rapidez e eficiência, sem se enganar, embora pareça que tem a cabeça noutro lado qualquer. É vagamente simpática com os clientes, correcta mas de poucas falas. Há porém um cliente que atrai a sua atenção e, hoje, quando ele se aproxima, recebe o dinheiro do jornal e oferece-lhe uma revista com um sorriso aberto.
- É uma oferta, diz.
Ele, espantado, pergunta-lhe.
- Porquê?
- Porque nunca se decide qual deve comprar, e hoje apetece-me oferecer-lhe esta, responde ela.
E a sua atitude deixa-o desarmado. Agradece, leva a revista. Ao almoço folheia-a, pensativo, perturbado pelo gesto dela, pelo seu sorriso bonito, surpreendido por nunca ter reparado nela apesar de a ver todos os dias. Ainda mais surpreendido por ela ter reparado em si.
À tarde tem dificuldade em concentrar-se no trabalho, à noite tem dificuldade em adormecer. Não obstante, acorda bem-disposto e passa a manhã ansioso a olhar para o relógio, à espera da hora do almoço. Contra todas as regras, sai cinco minutos mais cedo, corre para a papelaria, ignora o jornal, compra uma revista, aguarda impaciente a sua vez para pagar.
- Olá! Exclama ela, radiante, estou a ver que desistiu do jornal.
- Vou seguir o seu conselho, diz, entusiasmado, para variar. E depois, numa inspiração, pergunta.
- Como te chamas?
(01/04/2013)
Joaquim Rodrigues
"A Flor"
Que sorte tu tens, meu amor!
Quem ma dera ter também!
Recebeste uma flor.
E nem soubeste de quem.
Pobre florinha, tão querida.
Que teve os carinhos meus.
Vai é ficar esquecida.
Pois não lhe darás os teus.
Se a tua sorte eu tivesse.
Ó meu amor o que eu faria!
Que carinho lhe daria!
O que a uma só envaidece.
A outra dava aventura.
Maior, mais terna, mais pura!
(01/04/2013)
Joaquim Rodrigues
"Os meus Relógios"
Na minha Sala, tão sozinho.
Olho ao meu redor, e vejo.
Vejo um frasco de perfume.
Para esta vida de estrume.
Me ajudar a suportar.
Minora-me o azedume.
Os relógios são tantos.
Meus relógios.
Na minha sala tão sozinho.
Eu me lembro muito bem.
Cada um, história tem.
E toda para contar.
Já que são tristes também.
O do avô.
O do meu materno avô.
Na minha sala tão sozinho.
Sua imagem vejo agora.
Como nos tempos de outrora.
Quando visitar-me vinha.
E eu adorava essa hora.
Do paterno.
Do meu querido avô paterno!
Na minha sala tão sozinho.
Como não me hei-de lembrar.
Se há pouco foi a enterrar.
Se desta cabeça minha.
Não se pode ainda apagar?
O de música.
O despertador de música.
Que me obriga ouvir.
Que me obriga ouvir.
Na minha sala, tão sozinho.
Vejo-me, então, a sorrir.
(31/03/2013)
Joaquim Rodrigues
domingo, 31 de março de 2013
"Chocar com o Destino"
Mas agora lá está ela de cócoras com os restos do aguaceiro a escorrerem-lhe da gabardina, pelas mangas, para as mãos molhadas, para as folhas de papel espalhadas pelo chão. Ele faz um esforço para controlar a irritação, pensando que preferia que ela não tocasse nas folhas para não fazer mais estragos, mas vê-a tão atrapalhada que não tem coragem de a repreender. Ela deposita-lhe nas mãos um molho de folhas amarrotado. Tem um sorriso comprometido, o cabelo desalinhado, os olhos verdes muito abertos. Pede-lhe mil desculpas. Ele força-se a sorrir,
- Não faz mal, diz.
- É um livro? Pergunta-lhe.
“É um ano de trabalho, pensa ele”.
- É, é um manuscrito, responde-lhe.
- Boa sorte, espero que o consiga editar, diz ela.
Ele sorri, e desta vez é um sorriso genuíno. Ela deambula por entre as bancadas à espera que a chuva passe, pega num livro, lê vagamente a contracapa, pousa-o. Dali a pouco agarra noutro livro de um autor consagrado e, ao ver a fotografia dele na badana, reconhece o homem com quem chocou há pouco. Faz uma careta ao lembrar-se que lhe desejou boa sorte para o livro, como se fosse um novato qualquer.
Sobe a rua quando o sol irrompe por entre as nuvens e um brilho novo refulge nas pedras da calçada molhada. Passa ao lado das esplanadas, onde o poeta de bronze se eterniza sentado de perna cruzada. Os turistas retornam às mesas depois da borrasca. Descobre-o numa dessas mesas debaixo de um chapéu-de--sol, concentrado, a dar uma ordem às páginas que caíram ao chão. Ele ergue os olhos e ali está ela outra vez.
- Devo-lhe um duplo pedido de desculpas, diz, por lhe ter espalhado as folhas pelo chão e por não o ter reconhecido.
Ele ri-se.
- Não se quer sentar?
- Não incomodo?
- Desde que não mexa em nada, diz ele com um ar sério de quem está a brincar.
- Prometo que não toco em nada, responde ela.
Tira o livro dele do saco que comprou na livraria e pede-lhe um autógrafo.
- Reconheci-o pela fotografia, afirma, se não tivesse chocado consigo não o teria comprado, comenta, com a cabeça de lado, observando-o a assinar com uma caligrafia expedita.
Ele faz que sim com a cabeça, a pensar que se ela não se tivesse sentado à sua frente não estaria agora hipnotizado pelos seus olhos verdes e a perguntar-se se terá sido o destino que chocou consigo e se ela não poderá ser a mulher da sua vida, embora nenhum dos dois o saiba. Enfim, o costume: vê a vida como uma ficção caprichosa que talvez escreva mais tarde, mesmo sem ainda não conhecer o fim da história.
(31/03/2013)
Joaquim Rodrigues
"Sonho Meu"
Quem me dera ser feliz.
Ao menos só por um dia.
Mas o criador não quiz.
Dar-me nenhuma alegria.
Sentir no meu coração.
Uns momentos de prazer.
Saborear a emoção.
Dum dia de amor, viver!
Era um só dia meus Deus!
Olhos nos olhos de alguem.
Lábios dela em lábios meus.
Mais não queria, meu senhor.
Do que levar pró Além.
Comigo, um dia de amor.
(31/03/2013)
Joaquim Rodrigues
"Secalhar, não é Amor!"
Mas havia uma coisa que os distinguia dos outros casais que conheciam. Peter, o alemão alto de Hamburgo, não tinha nenhum amigo com uma namorada Portuguesa. E Ana, a morena de olhos claros do Porto, não tinha amiga nenhuma com um namorado alemão. Algumas já se tinham enrolado com uns turistas de Düsseldorf, numas férias de verão há muito, muito tempo, mas isso não contava. Peter e Ana conheceram-se quando ela fez Erasmus em Munique. Queria ir para o centro da Europa porque, acreditava, era ali que estavam as melhores oportunidades de emprego quando acabasse o curso. Tinha razão. E por lá foi ficando. De trabalho em trabalho, foi ganhando currículo, aperfeiçoando competências, desenvolvendo experiência. Em Portugal tinha a família, os amigos, as férias, os afetos. Também tinha emprego, se quisesse, mas não tão bem pago. Peter também tinha arranjado emprego num banco, depois noutro, fora promovido, estava lançado. Foi assim durante três anos. Durante três longos anos, a relação durou. A cumplicidade estava garantida, o sentimento também. Mas havia uma coisa constante que ia chateando. Não matava mas moía. Aqueles dois gostavam-se mas o Norte e o Sul chocavam em feitios. E era constante. Volta não volta, Peter falava do sol de Portugal que invejava, mas desdenhava da capacidade de trabalho que dizia não existir no Pais de Ana. E Ana elogiava a ordem alemã, mas lamentava-se da falta de improviso germânica.
Há três semanas, o verniz estalou. Cansada de ver o namorado elogiar as políticas da chanceler Merkel e do ministro Schäuble, farta de ver Peter acenar com a cabeça cada vez que os amigos dele falavam da preguiça do Sul em oposição ao trabalho do Norte, Ana deu um murro na mesa. Discutiram. Gritaram. Atiraram coisas ao chão. Durante duas horas de tensão, ela chamou a si todas as dores de quem está farto de apertar o cinto. E ele berrou em nome da capacidade de poupança de quem está cansado de «trabalhar para os outros gastarem».
Naquelas duas horas, passaram em revista economia, finanças, hábitos, costumes, políticas, eleições, preconceitos. Ela não gostou do que ouviu e saiu de casa. Ele não gostou do que disse e pediu-lhe para ela voltar.
Ana ainda ponderou, mas as notícias falaram mais alto. E a família. E os amigos. Ela bem queria olhar para ele e não ver Berlim nem Bruxelas em forma de homem, mas do Porto as notícias do resgate financeiro da troika, dos bancos encerrados, da votação no parlamento à taxa aos depósitos, da falta de moedas e dos protestos na rua, tudo isso falou mais alto. Sim, se calhar não havia amor, e por isso não sobreviveram à crise.
Talvez fosse. Mas o certo é que o divórcio Norte-Sul de Peter e Ana deixou esta orgulhosa. Ainda ontem, em trocas de e-mails com amigos que lhe perguntavam se ela estava bem, fazia trocadilhos de finanças, como «os créditos da paixão acabaram» ou «os juros da relação já não são cobrados». Ainda assim, contínua triste. Ele também. E não há volta a dar a isso. Com ou sem empréstimos, vamos esperar para ver !.
(31/03/2013)
Joaquim Rodrigues
"Tormento de Amor"
Fez-se ao largo um vapor.
Que nos levava a nós dois.
E ao nosso amor.
Era de prata o luar.
Que nos beijava depois.
No alto Mar.
Para que nós vivessemos bem.
Nosso olhar apaixonado.
Só tu e eu, mais ninguém.
Só tu e eu, meu amor.
Nesse barquinho encantado.
Desde manhã ao sol-por.
Viagem maravilhosa.
Que nos deixava assim ver.
A vida tão cor de Rosa.
Não quero mais acordar.
Nem posso nunca esquecer.
O quanto te pude amar.
Minha vida foi um sonho.
Um sonho de amor contigo.
Que se tornou bem medonho.
Pois o desespero atroz.
De quem ama e, por castigo.
Do amor não houve a voz.
É algo que, torturando.
A pouco e pouco também.
A vida nos vai tirando.
O sonho ajuda a viver.
Mas faz mais mal do que bem.
Já que aumenta o nosso querer.
(31/03/2013)
Joaquim Rodrigues
sábado, 30 de março de 2013
"A Mulher e o Tempo"
" Já teve filhos, já se divorciou, anda à procura de um novo caminho, de um outro futuro. Sorri ao espelho, um sorriso malandro".
Pensa que já passou por tanto e não se arrepende de nada. Vai para o quarto vestir-se. Abre o armário, escolhe um vestido leve, por estriar, que comprou para este Verão, veste-o, volta ao espelho, observa-se apreciadora, com a cabeça de lado, sente-se satisfeita. Depois gasta mais algum tempo na casa de banho a pintar os olhos, a pôr um pouco de perfume no pescoço, a dar uma derradeira penteadela para soltar o cabelo ao seu gosto. Escolhe uma carteira, transfere para lá a tralha infindável que tem no saco de todos os dias, deixando de parte uma ou outra coisa de que não vai precisar hoje. Anda às voltas pela casa, descalça, à procura de um casaquinho fino preto que não sabe onde guardou. Encontra-o, volta ao quarto e escolhe umas sandálias de fitas que enrola nos tornozelos e prende com um laço. Ainda tem alguns minutos para a hora marcada. Vai ao computador matar esse tempo, no Facebook.
Dali a pouco recebe uma mensagem dele no telemóvel, a dizer que está a chegar. Desliga o computador, apanha a carteira, o casaco, dá uma última olhadela ao espelho da entrada e sai de casa. Quando entra no carro, ele recebe-a de boca aberta com um elogio sincero, diz-lhe.
- Estás linda.
Ela sorri, feliz com o efeito que provocou nele, mas pensa.
"Se tu soubesses o trabalho que tenho para ficar assim".
E mais uma vez lembra-se que há uns anos atrás bastava-lhe vestir qualquer coisa rapidamente e o efeito era o mesmo. Mas depois ri para dentro com a ideia de que ainda consegue fazê-lo abrir a boca de espanto quando a vê entrar no carro.
(25/08/2012)
Rodrigues Joaquim:
"Meu Pesar"
Tinha tanto que dizer, tanto, tanto.
E as palavras não me saiem.
Nem sequer me sai o pranto.
Nem as lágrimas me caiem.
Não sei o que sinto em mim.
Que morto me faz andar.
Nunca, nunca estive assim.
Nunca senti tal pesar.
A vida não tem sentido.
Para alguns pobres mortais.
Tudo lhes é proibido.
É uma triste e negra sorte.
Que os perssegue, a esses tais.
Desde o berço até à morte.
(30/03/2013)
Joaquim Rodrigues
"O Risco de Amar"
Trabalha num hotel, conheceu-o quando estava de serviço no bar. Achou-lhe graça, mas não deu importância. No entanto, ele apareceu no dia seguinte, e todos os dias dessa semana, à mesma hora. Ele viaja muito em trabalho, vem a Lisboa regularmente. Na vez seguinte deu com ela logo à chegada, no balcão da receção. O seu rosto iluminou-se quando a viu , disse.
- Gosto muito de a reencontrar.
E para ela naquele momento, aquela declaração, não foram indiferentes. Sorriu, e respondeu educadamente.
- É um prazer recebê-lo novamente no hotel.
Tratou-o por senhor. Mas na verdade sentiu uma emoção que a surpreendeu. Mais tarde, ele foi ao balcão, perguntou-lhe se não iria estar de serviço no bar. Como ela dissesse que não, pediu-lhe que fosse lá ter com ele depois de sair de serviço. Ela recusou, não poderia fazê-lo. Ele coçou a cabeça, atrapalhado, mas não desistiu, convidou-a para sair. Apanhada de surpresa, ela disse que não, inventou uma desculpa. Ele disse.
- Não faz mal, tenho a semana toda para a convencer.
Agora ela dá consigo a sofrer à espera do dia em que ele regresse ao hotel. Falam sempre ao telefone, mas receia que um dia ele mude de hotel e a esqueça. Por isso, decidiu que não podia continuar nessa angústia, e telefonou-lhe, disse-lhe que era altura de se separarem. Ele respondeu-lhe.
- Tenho uma semana para reconsiderar, até ao seu regresso.
Ela fraquejou na sua determinação.
- Está bem, uma semana, mas pediu-lhe que não telefonasse.
Os dias são lentos, a semana demora a passar. Ela está na receção e pergunta-se porque não lhe liga ele, porque não ignora o seu pedido. Sente uma tentação de lhe telefonar, mas resiste. Está apaixonada e assustada com a força desse sentimento, com o risco de ele a deixar, com a possibilidade de ele não voltar no fim da semana. Mas ele volta. Chega com um ramo de flores e declara à frente dos colegas, de uma multidão de hóspedes.
- Não podes desistir de mim porque te amo e quero casar contigo.
Ela, emocionada, ri-se com lágrimas nos olhos. Então, diz ele.
- Vais responder-me ou deixar-me aqui nesta expectativa?
Ela engole em seco, recompõe-se, responde-lhe sem pensar duas vezes.
- Sim!
Ele debruça-se sobre o balcão, beija-a, e há uma salva de palmas geral na receção.
(14/06/2012)
Rodrigues Joaquim:
"Sozinho"
No meu quarto, tão sozinho.
Eu penso em quais as razões.
Para tantas convenções.
E, nesta cabeça minha.
Não entra a confirmação.
Doi-me sempre o coração!
Porque somos tão fechados.
De amor-próprio tão ciosos.
Tão mesquinhos e vaidosos?
Para isto fomos criados?
Nada podemos fazer?
Assim o estou a crer.
Mas louvado seja aquele.
Que se resolve a lutar.
Para outra vida encontrar.
Pois nem tudo que fez Ele.
Saiu perfeito, afinal.
E aí é que está o mal!
(30/03/2013)
Joaquim Rodrigues
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