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quarta-feira, 3 de abril de 2013

"Vontade de um Abraço Teu"

 De repente, uma bátega medonha cai no meio do Verão. Tremendos riachos correm livremente, sobem os passeios, provocam uma desordem de carros que entope o trânsito. E no entanto faz tanto calor que uma neblina vaporosa se levanta, cobrindo a cidade molhada, e as pessoas vão pelas ruas como se caminhassem dentro de uma nuvem baixa. O dia esmorece numa melancolia pesada de tristes cinzentos e rostos fechados, ocultos nos guarda-chuvas que reaparecem fora de época. Ela vem caminhando no crepúsculo. Leva as mãos enfiadas nos bolsos de uma gabardina resgatada à última da hora do fundo do armário, a gola levantada, o passo acelerado. Atravessa a rua, esgueira-se por entre as escovas intermitentes dos para-brisas, pelos faróis prematuros, pelas buzinas exasperadas. Só quer regressar a casa, tomar um banho, descansar.Tem uma visão turva da rua, das lentes molhadas pela humildade, do assomo de uma lágrima indesejada que vem com a desilusão. Tira os óculos, guarda-os na carteira. Tinha um encontro marcado, mas ele não apareceu, não disse nada, limitou-se a faltar. Ligou-lhe do telemóvel, enviou-lhe mensagens sem resposta. Esperou uma hora e meia, dois cafés, um bolo de arroz que mal comeu, esboroado aos bocadinhos com os dedos distraídos enquanto os olhos se fixavam na porta, desviados ocasionalmente para o gritinho de uma criança, o sorriso de um casal, o estrondo de uma bandeja no chão.

Entra em casa, tira a gabardina, vai para o quarto, livra-se dos sapatos elegantes de salto fino com um solavanco, despe o vestido, vai para a casa de banho, põe a água a correr, apanha o cabelo, toma um duche morno. Volta ao quarto, verifica o telemóvel enquanto se seca. Ele não telefonou, não disse nada. Põe a toalha de lado e, em vez de se vestir, deita-se em cima da cama. Está tanto calor, pensa, antes de adormecer.
A campainha desperta-a no escuro. Abre os olhos, acende a luz, tenta saber as horas, perdida no tempo, mas não tem relógio. A campainha insiste. Embrulha-se num roupão e vai acudir à porta. Abre-a e ali está ele, com uma expressão comprometida. Sente um alívio que não demonstra, ele perde-se numa sucessão de desastres que tem para se justificar.
- Até fiquei sem bateria no telemóvel, diz, foi um dia para esquecer. Perdoas-me?
- Perdoo! Responde ela.
Larga o roupão ao puxá-lo para dentro, revelando-se, fecha a porta, deixa-se abraçar por dentro do roupão.
- Mas não repitas, avisa-o.
- Não, promete ele.
- Pensaste que te tinha deixado? Pergunta-lhe depois.
- Não, responde-lhe, esquivando-se ao desgosto que teve.
- Só consegui pensar na vontade que tinha de um abraço teu.

(05/05/2012)
Rodrigues Joaquim:

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