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domingo, 20 de agosto de 2017

"Promessa de Amor" HD

Joaquim Rodrigues

"Saudades"

Joaquim Rodrigues


Sinto ainda a frescura de um perfume que ainda deixa o ar com o aroma da saudade. Sinto ainda o cheiro do seu hálito que me chegou tão doce e tão fresco, trazido pelo vento.
Sinto a saudade do entardecer, do final dos nossos dias juntos, saudades daquelas tardes de Verão que mais pareciam de outono, do friozinho que sentia dentro e fora do meu corpo só porque ali estavas tu comigo. Saudades da pracinha que eu e tu visitávamos, saudade daquela árvore de cheiro agreste que lá havia, que deixava cair as suas flores pálidas, dando um ar de nostalgia.
Lembro-me de uma tarde em que eu tremia a teu lado, acho que se fosse retratada em uma tela aquela tarde, ganharia uma cor especial, um rubro-alaranjado do pôr-do-sol que teimava nos visitar de vez em vez. Talvez algumas gotas de amor a deixariam com uma aparência menos bucólica.
É inegável o bem que me fez hoje eu lá voltar àquela praça escolhida por nós dois, íamos lá namorar, como não existisse lugar mais nenhum para namorar e poder sentir o nosso amor, sempre no fim das tardes Outonais numa época de Verão.
Eu hoje ainda sinto o perfume das pétalas daquela flor que caia sobre nós da árvore que lá havia. Tudo era lindo, parecia uma encomenda dos anjos do céu, a impressão que dava, que a cada "Te amo" que trocávamos, eles derramavam uma cascata de flores e sorriam satisfeitos pela missão cumprida.
Á muito tempo alguém me disse que nunca temesse amar, que mesmo que fosse um amor passageiro que eu o acolhesse que o guardasse com carinho. Nessa época eu perguntei porquê, mas hoje eu sei e sinto a resposta que recebi. 
É sobrenatural, tem muitas emoções, sinto desejo de viver cada segundo, de sorrir cada momento, de amar sempre. Sinto desejo de a ter comigo para aquecer todas as tardes frias de um outono em tempos de Verão.
Tudo isto, como posso eu, esquecer? Se não paro de sentir o perfume das pétalas caídas e perfumadas de todos aqueles meus dias a seu lado? A cada dia que eu regresso atrás daqueles lindos e felizes momentos, como eu vou esquecer se até o cheiro do seu hálito eu sinto? E o seu paladar também.

(29/06/2017)
Joaquim Rodrigues

sábado, 19 de agosto de 2017

"Amor sentido" HD

Joaquim Rodrigues

"Um amor vulgar"

Joaquim Rodrigues


A um sábado há tarde eles os dois entram no supermercado vai às compras, são um casal vulgar, na casa dos sessenta, daqueles que ninguém repara duas vezes, quando cruzam com eles. Ele veste um fato cinza escuro, gasto, de má qualidade, e usa gravata apesar de ser fim-de-semana. Ela traz um dos seus eternos vestidos leves de Verão, floridos, que dão a impressão de serem todos iguais e todos igualmente banais.
Demoram-se cerca de uma hora pelos corredores do supermercado. Escolhem criteriosamente os produtos que compram, e trocam uma ou duas palavras sobre a marca dos cereais ou do azeite e, estando os dois de acordo, colocam-nos no carrinho. Nenhum deles toma uma decisão autónoma e faz uma compra por impulso. Tudo o que levam obedece à regra do consenso. Dir-se-á que é uma negociação inútil, visto que no final levam exactamente as mesmas compras de sempre, mas trata-se de um ritual antigo que lhes dá prazer cumprir.
Colocam os produtos no tapete rolante da caixa, onde a empregada jovem vai passando com eficiente indiferença as embalagens pela máquina que lê o código de barras. A rapariga não abre a boca, senão para lhes perguntar se querem sacos e para os informar do total da conta. E muito se poderia dizer sobre uma pessoa pelas compras que faz. Mas ela só está interessada em verificar quanto tempo falta para acabar o turno.
Ele enche dois sacos de plástico enquanto ela atrapalha a fila de clientes ao apresentar um maço de papéis de desconto que obriga a empregada a verificar antes de fazer a conta. Depois, tira uma nota da carteira e alguns trocos do porta-moedas. Saem do supermercado, atravessam a rua, colocam os sacos no porta-bagagens do carro, voltam a trancá-lo, dirigem-se para a pastelaria ali mesmo em frente, sentam-se na esplanada. Pedem dois cafés e dois pastéis de nata. E, se não pedissem, o empregado saberia o que lhes deveria trazer, pois vão lá há anos e, que ele se lembre, nunca fizeram um pedido diferente.
Não conversam muito, mas há uma ternura óbvia na forma como comunicam com um olhar cúmplice ou um gesto atencioso. Demoram-se ali cerca de meia hora. Há sempre uma ou outra pessoa que entra ou sai da pastelaria e que os cumprimenta educadamente, gente conhecida do bairro, só isso. Eles não têm propriamente amigos, nem filhos, nem sequer família afastada. Vivem um para o outro com uma dedicação pacífica, muito agarrados às rotinas quotidianas. Houve um tempo em que pensaram em viajar um pouco, depois de se reformarem, mas, chegada a altura, acabaram por desistir da ideia. São um casal sem ideias. Ainda assim, são felizes à sua maneira, enfim, moderadamente felizes, como tudo na vida deles.

(18/07/2014)
Joaquim Rodrigues

"No escuro" HD

Joaquim Rodrigues

"O lênço de papel"

Joaquim Rodrigues

Na vida a gente aprende de tudo, aprendemos como podemos ver o amor, e como o amor muitas vezes nos faz chorar, e como durante esse período de tempo consome-se dezenas de lenços de papel, só para limpar a ranheta que largamos.
Todos tipos de lenços usados são muito frágeis, e todos os namorados não param de ter erros ortográficos, foi sempre assim, e sempre assim será! Ainda hoje na reprodução dos lenços originais, os erros não foram corrigidos, se tu aceitares, só te posso aconselhar duas coisas.
Primeiro proponho que participes num concurso, reescreves todas as quadras que tens na tua memória em lenços de papel, mas escreve sem erros.
Segundo vais ter de lembrar que eu existi na tua vida, e que as quadras que escreveres têm sempre forçosamente de ter o meu nome, caso contrário, o que reescreveres nunca vai ser verdadeiro. Convém te preparares bem, para entrares no concurso, para não falhares, entras então numa biblioteca, pode ser a biblioteca da vida, pois ela ensina muito bem, e lê tudo sobre pessoas que não param de consumir papel, e então é ai, que tu me vais conhecer melhor.
 Aproveita para aprender de onde sai o papel para fazer os lenços dos ranhosos, e como os lenços depois são feitos.
Quanto ao concurso atenção só serão aceites os melhores trabalhos. Mas se tu fores inteligente, talvez consigas, talvez sejas a melhor, depois já não tens de consumir papel. Portanto despacha-te há um prémio para o melhor trabalho. Eu já mandei o meu.
Meu amor deixa-me eu chorar até eu me cansar e consumir todo este papel, só quero que me leves para um lugar qualquer contigo e chorar há vontade, mas onde Deus nos possa ouvir aos dois”

(26/07/2017)
Joaquim Rodrigues

"Viver feliz" HD

Joaquim Rodrigues

"Reflexão"




Joaquim Rodrigues

Hoje acordei e lembrei-me que afinal sou um felizardo, ainda tenho mais um dia para viver e para tentar ser mais um dia feliz, e até me deu uma vontade enorme de gritar ao mundo que me dessem ouvidos. Eu sei que não devemos levar as coisas muito a sério, nem os trabalhos devem ser levados tão a sério!
Por isso devemos nos limitar a existir e não levar nada até ao limite, nunca deixe que a sua casa as suas janelas brilhem mais do que o brilho que você é capaz de transmitir. E pense que até a camada de pó vai proteger a madeira que está por baixo dela!
Uma casa só vai virar um lar quando você for capaz de escrever “Eu amo-te” sobre os móveis.
Antigamente havia quem gastava-se no mínimo 10 horas por semana para se manter tudo bem limpo em casa. Caso alguém aparecesse para nos visitar estaria todo o nosso orgulho protegido. Mas depois descobrimos que ninguém passa por acaso lá por casa para nos visitar. Hoje todos estão muito ocupados viajando, passeando, se divertindo, vão aproveitando a vida!
E se agora, alguém aparece de repente cá em casa como eu me vou sentir? Não tenho que explicar a minha vida nem a situação da minha casa a ninguém e pronto. As pessoas não estão interessadas em saber o que eu fiquei fazendo o dia todo enquanto elas passeavam, como deve ser! Se divertiam, e aproveitavam a vida.
Caso você ainda não tenha percebido, a vida é curta, aproveite-a, e tire o pó, só se precisar
Porque será sempre muito melhor pintar um quadro ou escrever uma carta a alguém que amamos ou mandar um SMS, dar um passeio, uma caminhada saudável, ou visitar uma amiga/o, fazer um bolo e lamber a colher suja de massa, ou então plantar e regar umas sementinhas na entrada da sua porta, talvez quando alguém pensar ser a sua visita, possa gostar de ver.
 Mas pense bem, na diferença que existe entre o querer e o precisar, limpe o pó só se precisar.
Porque você vai ter muito tempo livre é para beber champanhe, nadar na praia (ou na piscina), escalar montanhas, brincar com os cachorros, ouvir música e ler livros, curtir os amigos e correr, fazer tudo que podemos fazer nesta vida, que tem o seu final ali já. Aproveite a vida. Nunca esqueça que não passamos de uma alma solta, libre, só assim a vida vale a pena, ser vivida, ninguém é escravo de nada nesta vida, e você também não! Por isso, tire o pó só se precisar. A vida continua lá fora, o sol ilumina nossos olhos, o vento agita-nos os cabelos, um floco de neve, ou as gotas da chuva caindo mansamente. Pense bem, este dia está a chegar ao fim, ele não volta jamais. Tire então pó, só se precisar.
Mas atenção não se esqueça que você vai envelhecer e muitas coisas não vão ser tão fácil de fazer como agora o é.
E quando você partir, como todos nós partiremos um dia, quando fazer aquela viagem que todos temos de fazer, você também vai virar pó, e ninguém vai-se lembrar de quantas contas você pagou nesta vida, nem de sua casa tão limpinha, mas vão se lembrar de sua amizade, de sua alegria e do que você ensinou a todos nesta vida que afinal é tão curta.
“Não é o que você juntou, e sim o que você espalhou que reflecte como você viveu a vida.”

(19/08/2017)
Joaquim Rodrigues

quinta-feira, 18 de maio de 2017

"Coração" HD

Joaquim Rodrigues

"Imaginação"


Joaquim Rodrigues

Um dia os dois combinaram fazer uma história de Amor, eles estavam decididos, nada os iria conseguir impedir. Seria uma história com um destino feliz onde não seria permitido algum caminho difícil, nem estradas com atalhos. Eles seriam assim duas pessoas cheias de esperança, de amor, e paciência.
Os dois foram coleccionando todos os detalhes juntos, todos os sonhos que tinham, e só compreende isso quem tem alguém a seu lado sonhando o mesmo sonho. Queriam pertencer um ao outro, e sobre isso, estavam decididos a tudo, cada dia que passava, a solidão diminuía e o desejo aumentava, e nada os fazia parar tudo estava mais perto do início do que do fim.
Ele hoje vê a tarde terminar, o Céu abre-se sobre a cidade e um Sol frágil irrompe por entre as nuvens douradas que se dispersam lentamente a favor de um vento suave. Observa a noite a descer pelos prédios, as sombras que crescem, pesadas, os candeeiros que se acendem, repara no movimento, nos passos abafados de transeuntes ensimesmados, nota o ambiente soturno que o rodeia, enquanto se lembra dela, como fosse verdade estar ali à sua espera numa esquina de uma rua. Imagina que ela vai ter com ele ali, que vai ao seu encontro, vai dizer-lhe que não o quer mais, que tem razões mais que suficientes para o fazer, como acredita no amor imagina que ela talvez leve com ela uma lágrima fácil, um embaraço que a deixe contristada. Imagina-a a saiu de casa, a descer a rua, parar a meio para respirar fundo, e ganhar coragem, mas logo retomar o caminho decidida.
Ele vai permanecendo ali encostado ao carro a pensar nela, consciente de que talvez a vai perder, treme só em imaginar, mas pensa que assim será o que tem de ser feito, quando o amor acaba. Não é a primeira vez que o abandona e não é a primeira vez que ele não desiste dela.
O que ela deseja não é claro para ele, existem muitas coisas mal explicadas que ele nunca entendeu e nunca soube a convencer do erro e desejava tanto entender. Ela quer amor, diz, sentir-se feliz, e ele não tem tudo o que a faz feliz. Já antes o apagou da sua cabeça, da sua vida, como nunca tivesse dependido do seu ombro, do seu abraço. E no entanto ele lembra-se que voltou sempre que precisou dele.
Ele ama-a mas não a entende. Ela vai e vem ao sabor de sentimentos insondáveis, de humores variáveis, de fantasias inconstantes. De repente passa pela cabeça dele que assim um dia acabarão definitivamente separados. Um dia, calcula, ela acabará sozinha.
Ela gosta dele, houve alturas em que necessitou muito do seu apoio, mas, na realidade, em toda a sua vida, nunca conseguiu ser feliz com ninguém. Parece desdenhar quem a ama. Usa e descarta. Parece que persegue uma quimera de amor, e ele nada disso alguma vez percebeu. Hoje é o dia certo para se imaginar como seria.
Ela chega ao pé dele já noite se instalou, cumprimenta-o com um beijo no rosto, fria e distante. Conversam, sente que é altura de se separarem, e diz-lhe.
 - É isso que tu queres? - Pergunta ele.
 - É, faz que sim com a cabeça.
Ele encolhe os ombros e diz.
 - Está bem.
Ela incomodada com a sua reacção, pergunta-lhe.
 - Não ficas chateado comigo?
 - Não, responde.
 - Muito bem, afirma, então, vamos falando.
 - Sim, claro, concorda ele.
Despedem-se, ele entra no carro, ela afasta-se, subindo a rua. Vai irritada porque ele não se importou. Ele importou-se, mas está farto dos seus caprichos de menina mimada que não sabe o que quer. Para ele, o fim é quase um alívio. Para ela é um choque. Desta vez ele não fará nada para a convencer a mudar de ideias. Desta vez ela percebe que vai mesmo perde-lo, mas, como é orgulhosa, não será capaz de voltar com a palavra atrás. Sentem-se ambos mal, miseráveis, e, no entanto, já não há nada a fazer, o seu amor está condenado, ou não?
(18/05/2017)
Joaquim Rodrigues

segunda-feira, 15 de maio de 2017

"AMOR NO PARQUE"


Joaquim Rodrigues

Pode parecer cruel mas era no meu muro, que tinhas o teu ponto de equilíbrio, e eu amava ver o meu amor respeitado como tem que ser. Os passeios contigo eram sempre como entrar num belo e anestesiante paraíso que eu não conhecia. Então já lá no jardim dos amores-perfeitos, eras só tu que contavas malmequeres.
Quando tudo mudou, quando era mais forte do que alguma vez fora e, desde aquele dia, tenso como nunca mais. Perdia-me sempre nos teus passos quando te encostava a um lugar que tu conhecias, assim como no muro, ou me pedias para sentar num banco do jardim para poderes ficar ali a olhar nos meus olhos, e me fazias sentir que não existia, que não estava exactamente atrás de ti a fazer-te subir nas pontas dos pés até aos olhos vítreos, na parede do louvor à pressão.
Pode não parecer, mas saiamos do jardim do parque-da-cidade onde me levavas, muito antes que as portas fechassem, e perto da nossa hora limite, a fazer fé no martírio que desatou a apossar-se de nós os dois, quando nos começávamos a sentir já infelizes, desconfiado um do outro e de tudo, e muito antes do após abandono. Nesse dia, o que deixamos de consumir ardeu a sós e ardeu para sempre.
Ainda me lembro, à medida que nos aproximávamos das árvores, era o cimento da cidade que começava a aparecer mais líquido. Desorientava-se da formação matriculando-se no tronco, nunca mais calçada, e muito menos cinza, uma antecipação de subida rubra.
Sei como nos perdíamos com o olhar pela copa daquelas árvores lá no parque, e como lá em cima, sendo perto, parecia tao mais longe do que o lado oposto do lago que lá existia. E como toda aquela paisagem imensa oferecida aos meus olhos me fazia tão bem, aos meus olhos, porque tu já conhecias, e eu só com meu olhar te agradecia.
Desabotoávamos o olhar do plano geral para chegar à geografia das folhas, à circunferência da copa das árvores, a poucos metros altos. Mas quando me pedias que eu subisse, ou me levantasse, fazia questão de te dizer que nunca recolhi folhas que não se inscrevessem poesia no chão, “Nesse tempo tudo era poesia, aquela poesia que ficou gravada do meu peito aquela que aqui eu escrevo”. Quando afinal comecei a perceber da minha fragilidade, me senti muito só, era como desejar o que nunca fui capaz de ter.
Só em lembrar já pode ser cruel, porque passou a ser com medo que frequentei aqueles lugares. Não me sentia capaz de reconhecer quem eu era, e com quem eu andava. Era eu e um ritmo tonto que eu não conseguia controlar, uma falta de confiança por nunca conseguir, te sentir completamente comigo, completamente a meu lado, por nunca saber o que estava a chegar de novo, ou um olhar de querer que o tempo passasse que me deixava completamente desconfortável.
Mas deambulava sem heroísmo a teu lado, e sentia no teu olhar uma falta de confiança em mim até chegar a coragem de confesso, que afinal nunca tinha existido, e que a comoção estava gasta, e que todas as agitações só apareciam em pequenas porções relâmpago, sempre por lugares onde tu me levavas, lugares que me fazia esquecer tudo, até folhas secas, que com o tempo foram perdendo as vísceras. Eu quis sempre esvaziar-te em mim, encher-me por dentro com as cordas do baloiço, entregar-te ao meu suporte, cada caminhada a teu lado parecia um infinito.
Mas passou a ser amargo o tempo, porque tu assim o querias, trocavas o meu tudo que era só teu, por todos os avisos que vinham de fora de nós, e assim fazias de um lugar só nosso controlado por o outros indesejáveis seres que nada nos acrescentava, mas que nunca deixaram de andar ao nosso lado. Até no lago do parque que para mim fazia parte do meu paraíso, não nos deixavam em paz.
E sem perceberes, tornavas o lugar não só escolhido para nós os dois, mas sim para muitos outros, e tu nunca te preocupaste para que eu não percebesse. Fazias do lindo passeio do parque algo que já lá não tinha chão onde pudesse apanhar folhas secas.
Bem antes dos portões se fecharem, eu olhava para a copa do muro que desfilava em cimento entre árvores, e sem ponto de passagem e sem plano geral, obrigavas-me a dizer mil vezes o que faço eu aqui.
(15/05/2017)
Joaquim Rodrigues

segunda-feira, 6 de março de 2017

"Amém" HD

Joaquim Rodrigues

"Difinição de Amor"



                                                                   Joaquim rodrigues

Um velhinho entrou num consultório médico para fazer um curativo, pois numa tarefa de casa tinha-se magoado numa mão na qual havia um profundo corte. Muito apressado o velhinho pediu urgência no seu atendimento, pois tinha um compromisso muito sério a fazer.
O médico que o atendia levantou os olhos na sua direcção e muito curioso perguntou.
 - O que tem você a fazer de tão urgente, para ser mais importante que o corte de sua mão? - perguntou o médico.
O simpático velhinho logo respondeu.
 - Todas as manhãs eu tenho de visitar a minha esposa que está em tratamento numa outra clínica com o mal de Alzheimer e em fase já muito avançada.
O médico, preocupado com o atraso do atendimento, voltou a perguntar ao velhote.
– Então? Mas hoje ela vai ficar muito preocupada com sua demora?
O velhinho respondeu.
– Não, ela já não me conhece já não sabe quem eu sou, já vai para quase cinco anos que ela não me reconhece.
O médico então questionou o velhote.
– Mas então para que tanta pressa em vê-la todas as manhãs, se ela já não o reconhece?
O velhinho então deu um sorriso e, batendo de leve no ombro do médico, respondeu.
– Ela não me reconhece é verdade, não sabe quem eu sou isso é tudo verdade Doutor, mas eu sei muito bem quem ela é!
O médico teve que aguentar forte para não deixar cair as lágrimas que sentia querer cair pelo seu rosto, enquanto pensava.
 “ O verdadeiro Amor é isto! Não se resume ao físico, nem ao romantismo, o verdadeiro Amor é a aceitação de tudo que o outro é. De tudo que foi um dia, do que será amanhã, e do que já não é mais!

(05/03/2017)
Joaquim Rodrigues

"Eu te amo, eu te amo" HD

Joaquim Rodrigues

"Nostalgia - I"

Joaquim Rodrigues

No crepúsculo do bar cheio a uma hora tardia, os focos de luz caem sobre a banda que atua no palco ao fundo da sala. Sentado a uma mesa num canto discreto, ele fuma um cigarro e observa a sala, satisfeito com o resultado de um longo trabalho. Abriu o bar há quase cinco anos e agora é um sucesso, mas o pensamento foge-lhe para uma recordação melancólica, como lhe acontece recorrentemente. Lembra-se dela, parece que a está a ver ali à frente a cantar, com a sala caída num silêncio rendido ao fôlego suspenso numa emoção, as almas enlevadas, prestes a rebentar em palmas e gritos de entusiasmada aprovação ao extinguir-se o último som que lhe sai do coração.
Recorda-a a servir às mesas e atrás do bar. É bonita, tem um sorriso tímido, faz o seu trabalho sem se fazer notar, mas sem uma falha. Lembra-se de entrar no restaurante durante a tarde, a uma hora em que está fechado ao público, e surpreendê-la sozinha no palco, sentada num banco alto a tocar a guitarra e a cantar de olhos fechados para a sala vazia. Ele fica ali parado de pé, espantado, a pensar que nunca ouviu uma voz assim. A música acaba, ela abre os olhos e fica embaraçada ao perceber que ele estava a ouvi-la sem que tivesse dado pela sua presença, nem a sua chegada.
Convence-a a cantar em público, procura músicos para a acompanharem, ajuda-a a começar a nova carreira, apaixona-se. Ela diz que o ama, que ele é tudo para si. Enche a sala todas as semanas, com a sua voz, com gente que vem de longe para a ouvir. Grava um disco, passa na rádio, dá concertos. Parte em digressão pelo país e telefona-lhe um dia – ele lembra-se desse telefonema como se fosse hoje, com a mesma angústia.
 - Desculpa-me mas não volto mais, diz-lhe que já não volta para ele.
Soube que ela vivia com um dos músicos da banda. Ela escreve-lhe uns emails dispersos, sempre que chega a uma terra nova. E ele nunca lhe responde, e os emails são cada vez mais espaçados no tempo, até findarem definitivamente.
Ao fim da noite, depois de terem saído todos os clientes do bar restaurante, só lhe resta fechar a porta e ir para casa. Mas fica ainda um pouco a acabar a bebida, a fumar mais um cigarro, sentado no crepúsculo, à mesa do canto. À sua esquerda, a luz da rua entra pelos vidros da porta. Ela está ali parada a olhar para ele, meio rosto iluminado pela claridade de fora.
 - Estava a pensar em ti, diz ele, sem se preocupar em fingir que não quer saber dela.
 - O quê?
 - A pensar se voltarias um dia.
 - Nunca me fui embora, responde ela, na minha cabeça estive sempre aqui.
Passa por ele um sorriso fugaz, e pergunta-lhe.
 - Queres sentar-te?
 Ela tira o casaco enquanto ele lhe serve uma bebida da garrafa em cima da mesa, então diz.
 - Conta lá! Por onde tens andado?
(16/12/2016)
Joaquim Rodrigues

domingo, 27 de novembro de 2016

"MEU CORPO NO TEU" HD

Joaquim Rodrigues

“SONHO”

Joaquim Rodrigues

”O amor nos faz sonhar, não é mesmo? Mas o sonho a mim não me faz dormir. Quero encostar o meu corpo no teu, mas sem ter nuvens.
Quero seguir com obediência o papel da minha mente, e fazer seguir o teu corpo nos meus passos, sentir nas minhas costas os teus braços, num calor um ferver abençoado, entre desejos e paixão como dois amantes entre lenções.
Ter os teus lábios recitando poros da alma nesta união serena, e ver que tu és um alvo moldado, um recital carnal de palavras muda.
Sentir teus suspiros como o som da música que dançamos de rostos colados sentindo o amor. Seja de olhos bem abertos ou fechados, sempre num ambiente perfumado como uma flor."

(27/11/2016)
“Joaquim Rodrigues

domingo, 23 de outubro de 2016

"Ficar sempre em pé" HD


"O casamento hoje"

Joaquim Rodrigues

Afinal os tempos de hoje não estão em mudança, os tempos de hoje mudaram há muito. Já passaram muitos anos que não vimos famílias como antigamente, já não se vê pessoas como no tempo dos nossos pais. Eram tempos em que um casamento tinha um juramento sincero de longevidade, e as pessoas eram felizes, muito mais felizes do que o são hoje. Constituíam um lar, uma família, e era saudável de ver. Nunca se queixavam de nada, eram muito mais felizes, e assumiam como eram, e a que classe social pertencia nada os proibia de serem feliz, nada era mais importante do que a felicidade da família, nada tinha obstáculo, como parece ter as famílias de hoje.
Hoje as pessoas não sabem viver como no antigamente, hoje as pessoas parece estar mais interessadas em correr atrás de interesses pessoais e misturarem juras de amor e fidelidade eterna, mas que afinal nunca chegam a cumprir essas juras prometidas.
 Então porque será que as pessoas de hoje querem casar, e assinar um contrato, um código de conduta para sempre? Não se estará a viver uma falsa ilusão de que o casamento fará ter um parceiro para todas actividades no amor. Ou o casamento é uma troca de interesses, como a prostituição, que se casa em troca de algo, e aceita-se muitas situações porque se ganha com isso, e viver assim com alguma coisa, é melhor que não ter nada.
Na idade madura o casamento parece ser muito mais sério que quando somos jovens, pela simples razão, que já não existe muito tempo a perder, já não vivem naquela época do cego e do mudo ou do retardado. Hoje vivemos de paixões e necessidades sexuais, e passamos o tempo a confundir isso com o amor. Isso, dura durante 2 a 3 anos, não mais, e logo passam a cair na realidade, o sangue deixa de correr nas veias da paixão, os problemas sobem ao nível do nosso olhar, e o conceito de prostituição no casamento se faz presente.
E agora temos um casamento que passa a existir como uma troca de favores, de um lado está o marido, com a função de financiar a família do outro, a esposa que administra a casa, cuida dos filhos e comparece à noite, para sexo.
Existem também casamentos que são concretizados por interesse explícito, ou pelo dinheiro ou pela posição de vida que a pessoa pode gerar, em ambos os casos é prostituição no casamento. Não existe uma mulher casada que não tenha se prostituído no casamento, porque ela teve momentos no casamento que praticou sexo sem vontade, apenas para agradar ao marido que passou um mau dia no trabalho e estava querendo aliviar as suas tensões.
 Pode parecer algo estupido, mas se analisarmos vamos chegar a uma conclusão de que no fundo o casamento não é nada mais que uma troca de interesses, que na maioria das vezes é representado pelo amor. As pessoas têm uma necessidade de amar e ser amadas, mas esquecem-se que no concreto não ficam firmes sem que se misture vários componentes, ou seja, é necessário mais que amor para estruturar um casamento.
Na verdade, principal alicerce dos casamentos de hoje é o conformismo, porque financeiramente, se sentem bem, pela companhia do parceiro ou até mesmo pelo que a sociedade definiu como regra. Todos ou quase todos são obrigados a casar. Como se percebe as colagens dos casamentos são muitas, mas nem sempre são eficaz e quase sempre são escondidas ou camufladas.
Pensar nas possibilidades do casamento é pensar no futuro ou no que os outros pensam, ideologias é viver na ilusão do amor e nada mais.
O meu pensamento pode até ser contra mim mesmo, mas para mim, os casamentos não passam de uma tentativa, escusada, para qualquer ser humano fugir à solidão, porque se isso para muitos parece o fim. Então, pergunto eu, se não conseguem conviver consigo mesmo, como vão poder conviver em conjunto?
(23/10/2016)
Joaquim Rodrigues