Joaquim Rodrigues
O meu blog: “histórias do coração” ele mostra a beleza e todas as maravilhas que existem em nossas vidas em todos nossos sentimentos tudo em forma encantadora de palavras que nos saem do meu coração, um coração que acredita na vida na felicidade de tudo que a vida nos reserva. O meu coração é um livro sobre o amor que vivem na minha alma. (Aqui encontramos poemas, música, e histórias da vida real) (Joaquim Rodrigues)
domingo, 20 de agosto de 2017
"Saudades"
Joaquim Rodrigues
Sinto
ainda a frescura de um perfume que ainda deixa o ar com o aroma da saudade.
Sinto ainda o cheiro do seu hálito que me chegou tão doce e tão fresco, trazido
pelo vento.
Sinto
a saudade do entardecer, do final dos nossos dias juntos, saudades daquelas
tardes de Verão que mais pareciam de outono, do friozinho que sentia dentro e
fora do meu corpo só porque ali estavas tu comigo. Saudades da pracinha que eu
e tu visitávamos, saudade daquela árvore de cheiro agreste que lá havia, que deixava
cair as suas flores pálidas, dando um ar de nostalgia.
Lembro-me
de uma tarde em que eu tremia a teu lado, acho que se fosse retratada em uma
tela aquela tarde, ganharia uma cor especial, um rubro-alaranjado do pôr-do-sol
que teimava nos visitar de vez em vez. Talvez algumas gotas de amor a deixariam
com uma aparência menos bucólica.
É
inegável o bem que me fez hoje eu lá voltar àquela praça escolhida por nós
dois, íamos lá namorar, como não existisse lugar mais nenhum para namorar e
poder sentir o nosso amor, sempre no fim das tardes Outonais numa época de
Verão.
Eu
hoje ainda sinto o perfume das pétalas daquela flor que caia sobre nós da árvore
que lá havia. Tudo era lindo, parecia uma encomenda dos anjos do céu, a
impressão que dava, que a cada "Te amo" que trocávamos, eles
derramavam uma cascata de flores e sorriam satisfeitos pela missão cumprida.
Á
muito tempo alguém me disse que nunca temesse amar, que mesmo que fosse um amor
passageiro que eu o acolhesse que o guardasse com carinho. Nessa época eu perguntei
porquê, mas hoje eu sei e sinto a resposta que recebi.
É
sobrenatural, tem muitas emoções, sinto desejo de viver cada segundo, de sorrir
cada momento, de amar sempre. Sinto desejo de a ter comigo para aquecer todas
as tardes frias de um outono em tempos de Verão.
Tudo
isto, como posso eu, esquecer? Se não paro de sentir o perfume das pétalas
caídas e perfumadas de todos aqueles meus dias a seu lado? A cada dia que eu
regresso atrás daqueles lindos e felizes momentos, como eu vou esquecer se até
o cheiro do seu hálito eu sinto? E o seu paladar também.
(29/06/2017)
Joaquim
Rodriguessábado, 19 de agosto de 2017
"Um amor vulgar"
Joaquim Rodrigues
A um sábado há tarde eles os dois entram no supermercado
vai às compras, são um casal vulgar, na casa dos sessenta, daqueles que ninguém
repara duas vezes, quando cruzam com eles. Ele veste um fato cinza escuro,
gasto, de má qualidade, e usa gravata apesar de ser fim-de-semana. Ela traz um
dos seus eternos vestidos leves de Verão, floridos, que dão a impressão de
serem todos iguais e todos igualmente banais.
Demoram-se cerca de uma hora pelos corredores do
supermercado. Escolhem criteriosamente os produtos que compram, e trocam uma ou
duas palavras sobre a marca dos cereais ou do azeite e, estando os dois de
acordo, colocam-nos no carrinho. Nenhum deles toma uma decisão autónoma e faz
uma compra por impulso. Tudo o que levam obedece à regra do consenso. Dir-se-á
que é uma negociação inútil, visto que no final levam exactamente as mesmas
compras de sempre, mas trata-se de um ritual antigo que lhes dá prazer cumprir.
Colocam os produtos no tapete rolante da caixa, onde a
empregada jovem vai passando com eficiente indiferença as embalagens pela
máquina que lê o código de barras. A rapariga não abre a boca, senão para lhes
perguntar se querem sacos e para os informar do total da conta. E muito se
poderia dizer sobre uma pessoa pelas compras que faz. Mas ela só está
interessada em verificar quanto tempo falta para acabar o turno.
Ele enche dois sacos de plástico enquanto ela atrapalha a
fila de clientes ao apresentar um maço de papéis de desconto que obriga a
empregada a verificar antes de fazer a conta. Depois, tira uma nota da carteira
e alguns trocos do porta-moedas. Saem do supermercado, atravessam a rua,
colocam os sacos no porta-bagagens do carro, voltam a trancá-lo, dirigem-se
para a pastelaria ali mesmo em frente, sentam-se na esplanada. Pedem dois cafés
e dois pastéis de nata. E, se não pedissem, o empregado saberia o que lhes deveria
trazer, pois vão lá há anos e, que ele se lembre, nunca fizeram um pedido
diferente.
Não conversam muito, mas há uma ternura óbvia na forma
como comunicam com um olhar cúmplice ou um gesto atencioso. Demoram-se ali
cerca de meia hora. Há sempre uma ou outra pessoa que entra ou sai da
pastelaria e que os cumprimenta educadamente, gente conhecida do bairro, só
isso. Eles não têm propriamente amigos, nem filhos, nem sequer família
afastada. Vivem um para o outro com uma dedicação pacífica, muito agarrados às
rotinas quotidianas. Houve um tempo em que pensaram em viajar um pouco, depois
de se reformarem, mas, chegada a altura, acabaram por desistir da ideia. São um
casal sem ideias. Ainda assim, são felizes à sua maneira, enfim, moderadamente
felizes, como tudo na vida deles.
(18/07/2014)
"O lênço de papel"
Joaquim Rodrigues
Na vida a gente aprende de tudo, aprendemos como podemos
ver o amor, e como o amor muitas vezes nos faz
chorar, e como durante esse período de tempo consome-se dezenas de lenços de
papel, só para limpar a ranheta que largamos.
Todos tipos de lenços
usados são muito frágeis, e todos os namorados não param de ter erros
ortográficos, foi sempre assim, e sempre assim será! Ainda hoje na reprodução
dos lenços originais, os erros não foram corrigidos, se tu aceitares, só te
posso aconselhar duas coisas.
Primeiro proponho que
participes num concurso, reescreves todas as quadras que tens na tua memória em
lenços de papel, mas escreve sem erros.
Segundo vais ter de lembrar
que eu existi na tua vida, e que as quadras que escreveres têm sempre forçosamente
de ter o meu nome, caso contrário, o que reescreveres nunca vai ser verdadeiro.
Convém te preparares bem, para entrares no concurso, para não falhares, entras
então numa biblioteca, pode ser a biblioteca da vida, pois ela ensina muito
bem, e lê tudo sobre pessoas que não param de consumir papel, e então é ai, que
tu me vais conhecer melhor.
Aproveita para aprender de onde sai o papel
para fazer os lenços dos ranhosos, e como os lenços depois são feitos.
Quanto ao concurso atenção
só serão aceites os melhores trabalhos. Mas se tu fores inteligente, talvez
consigas, talvez sejas a melhor, depois já não tens de consumir papel. Portanto
despacha-te há um prémio para o melhor trabalho. Eu já mandei o meu.
“Meu amor deixa-me
eu chorar até eu me cansar e consumir todo este papel, só quero que me leves
para um lugar qualquer contigo e chorar há vontade, mas onde Deus nos possa
ouvir aos dois”
(26/07/2017)
Joaquim Rodrigues"Reflexão"
Joaquim Rodrigues
Hoje acordei e lembrei-me que afinal sou um felizardo,
ainda tenho mais um dia para viver e para tentar ser mais um dia feliz, e até me
deu uma vontade enorme de gritar ao mundo que me dessem ouvidos. Eu sei que não
devemos levar as coisas muito a sério, nem os trabalhos devem ser levados tão a
sério!
Por isso devemos nos limitar a existir e não levar nada
até ao limite, nunca deixe que a sua casa as suas janelas brilhem mais do que o
brilho que você é capaz de transmitir. E pense que até a camada de pó vai
proteger a madeira que está por baixo dela!
Uma casa só vai virar um lar quando você for capaz de
escrever “Eu amo-te” sobre os móveis.
Antigamente havia quem gastava-se no mínimo 10 horas por
semana para se manter tudo bem limpo em casa. Caso alguém aparecesse para nos
visitar estaria todo o nosso orgulho protegido. Mas depois descobrimos que ninguém
passa por acaso lá por casa para nos visitar. Hoje todos estão muito ocupados
viajando, passeando, se divertindo, vão aproveitando a vida!
E se agora, alguém aparece de repente cá em casa como eu me
vou sentir? Não tenho que explicar a minha vida nem a situação da minha casa a
ninguém e pronto. As pessoas não estão interessadas em saber o que eu fiquei
fazendo o dia todo enquanto elas passeavam, como deve ser! Se divertiam, e
aproveitavam a vida.
Caso você ainda não tenha percebido, a vida é curta,
aproveite-a, e tire o pó, só se precisar
Porque será sempre muito melhor pintar um quadro ou
escrever uma carta a alguém que amamos ou mandar um SMS, dar um passeio, uma
caminhada saudável, ou visitar uma amiga/o, fazer um bolo e lamber a colher suja
de massa, ou então plantar e regar umas sementinhas na entrada da sua porta,
talvez quando alguém pensar ser a sua visita, possa gostar de ver.
Mas pense bem, na
diferença que existe entre o querer e o precisar, limpe o pó só se precisar.
Porque você vai ter muito tempo livre é para beber
champanhe, nadar na praia (ou na piscina), escalar montanhas, brincar com os
cachorros, ouvir música e ler livros, curtir os amigos e correr, fazer tudo que
podemos fazer nesta vida, que tem o seu final ali já. Aproveite a vida. Nunca esqueça
que não passamos de uma alma solta, libre, só assim a vida vale a pena, ser
vivida, ninguém é escravo de nada nesta vida, e você também não! Por isso, tire
o pó só se precisar. A vida continua lá fora, o sol ilumina nossos olhos, o
vento agita-nos os cabelos, um floco de neve, ou as gotas da chuva caindo
mansamente. Pense bem, este dia está a chegar ao fim, ele não volta jamais.
Tire então pó, só se precisar.
Mas atenção não se esqueça que você vai envelhecer e muitas
coisas não vão ser tão fácil de fazer como agora o é.
E quando você partir,
como todos nós partiremos um dia, quando fazer aquela viagem que todos temos de
fazer, você também vai virar pó, e ninguém vai-se lembrar de quantas contas
você pagou nesta vida, nem de sua casa tão limpinha, mas vão se lembrar de sua
amizade, de sua alegria e do que você ensinou a todos nesta vida que afinal é
tão curta.
“Não é o que você juntou, e sim o que você espalhou que reflecte
como você viveu a vida.”
(19/08/2017)
quinta-feira, 18 de maio de 2017
"Imaginação"
Joaquim Rodrigues
Um dia os dois combinaram fazer uma história de Amor, eles estavam decididos, nada os iria conseguir impedir. Seria uma história com um destino feliz onde não seria permitido algum caminho difícil, nem estradas com atalhos. Eles seriam assim duas pessoas cheias de esperança, de amor, e paciência.
Os dois foram coleccionando todos os detalhes juntos, todos
os sonhos que tinham, e só compreende isso quem tem alguém a seu lado sonhando
o mesmo sonho. Queriam pertencer um ao outro, e sobre isso, estavam decididos a
tudo, cada dia que passava, a solidão diminuía e o desejo aumentava, e nada os
fazia parar tudo estava mais perto do início do que do fim.
Ele hoje vê a tarde terminar, o Céu abre-se sobre a
cidade e um Sol frágil irrompe por entre as nuvens douradas que se dispersam
lentamente a favor de um vento suave. Observa a noite a descer pelos prédios,
as sombras que crescem, pesadas, os candeeiros que se acendem, repara no
movimento, nos passos abafados de transeuntes ensimesmados, nota o ambiente
soturno que o rodeia, enquanto se lembra dela, como fosse verdade estar ali à
sua espera numa esquina de uma rua. Imagina que ela vai ter com ele ali, que
vai ao seu encontro, vai dizer-lhe que não o quer mais, que tem razões mais que
suficientes para o fazer, como acredita no amor imagina que ela talvez leve com
ela uma lágrima fácil, um embaraço que a deixe contristada. Imagina-a a saiu de
casa, a descer a rua, parar a meio para respirar fundo, e ganhar coragem, mas
logo retomar o caminho decidida.
Ele vai permanecendo ali encostado ao carro a pensar
nela, consciente de que talvez a vai perder, treme só em imaginar, mas pensa
que assim será o que tem de ser feito, quando o amor acaba. Não é a primeira
vez que o abandona e não é a primeira vez que ele não desiste dela.
O que ela deseja não é claro para ele, existem muitas
coisas mal explicadas que ele nunca entendeu e nunca soube a convencer do erro e
desejava tanto entender. Ela quer amor, diz, sentir-se feliz, e ele não tem
tudo o que a faz feliz. Já antes o apagou da sua cabeça, da sua vida, como
nunca tivesse dependido do seu ombro, do seu abraço. E no entanto ele lembra-se
que voltou sempre que precisou dele.
Ele ama-a mas não a entende. Ela vai e vem ao sabor de
sentimentos insondáveis, de humores variáveis, de fantasias inconstantes. De repente
passa pela cabeça dele que assim um dia acabarão definitivamente separados. Um dia,
calcula, ela acabará sozinha.
Ela gosta dele, houve alturas em que necessitou muito do
seu apoio, mas, na realidade, em toda a sua vida, nunca conseguiu ser feliz com
ninguém. Parece desdenhar quem a ama. Usa e descarta. Parece que persegue uma
quimera de amor, e ele nada disso alguma vez percebeu. Hoje é o dia certo para
se imaginar como seria.
Ela chega ao pé dele já noite se instalou, cumprimenta-o
com um beijo no rosto, fria e distante. Conversam, sente que é altura de se
separarem, e diz-lhe.
- É isso que tu queres?
- Pergunta ele.
- É, faz que sim
com a cabeça.
Ele encolhe os ombros e diz.
- Está bem.
Ela incomodada com a sua reacção, pergunta-lhe.
- Não ficas
chateado comigo?
- Não, responde.
- Muito bem,
afirma, então, vamos falando.
- Sim, claro,
concorda ele.
Despedem-se, ele entra no carro, ela afasta-se, subindo a
rua. Vai irritada porque ele não se importou. Ele importou-se, mas está farto
dos seus caprichos de menina mimada que não sabe o que quer. Para ele, o fim é
quase um alívio. Para ela é um choque. Desta vez ele não fará nada para a
convencer a mudar de ideias. Desta vez ela percebe que vai mesmo perde-lo, mas,
como é orgulhosa, não será capaz de voltar com a palavra atrás. Sentem-se ambos
mal, miseráveis, e, no entanto, já não há nada a fazer, o seu amor está
condenado, ou não?
(18/05/2017)
Joaquim Rodriguesterça-feira, 16 de maio de 2017
segunda-feira, 15 de maio de 2017
"AMOR NO PARQUE"
Joaquim Rodrigues
Pode parecer cruel mas era no meu muro, que tinhas o teu ponto de equilíbrio, e eu amava ver o meu amor respeitado como tem que ser. Os passeios contigo eram sempre como entrar num belo e anestesiante paraíso que eu não conhecia. Então já lá no jardim dos amores-perfeitos, eras só tu que contavas malmequeres.
Quando tudo mudou, quando era mais forte do que alguma
vez fora e, desde aquele dia, tenso como nunca mais. Perdia-me sempre nos teus
passos quando te encostava a um lugar que tu conhecias, assim como no muro, ou
me pedias para sentar num banco do jardim para poderes ficar ali a olhar nos
meus olhos, e me fazias sentir que não existia, que não estava exactamente
atrás de ti a fazer-te subir nas pontas dos pés até aos olhos vítreos, na parede
do louvor à pressão.
Pode não parecer, mas saiamos do jardim do parque-da-cidade
onde me levavas, muito antes que as portas fechassem, e perto da nossa hora
limite, a fazer fé no martírio que desatou a apossar-se de nós os dois, quando
nos começávamos a sentir já infelizes, desconfiado um do outro e de tudo, e
muito antes do após abandono. Nesse dia, o que deixamos de consumir ardeu a sós
e ardeu para sempre.
Ainda me lembro, à medida que nos aproximávamos das árvores,
era o cimento da cidade que começava a aparecer mais líquido. Desorientava-se
da formação matriculando-se no tronco, nunca mais calçada, e muito menos cinza,
uma antecipação de subida rubra.
Sei como nos perdíamos com o olhar pela copa daquelas árvores
lá no parque, e como lá em cima, sendo perto, parecia tao mais longe do que o
lado oposto do lago que lá existia. E como toda aquela paisagem imensa
oferecida aos meus olhos me fazia tão bem, aos meus olhos, porque tu já
conhecias, e eu só com meu olhar te agradecia.
Desabotoávamos o olhar do plano geral para chegar à
geografia das folhas, à circunferência da copa das árvores, a poucos metros
altos. Mas quando me pedias que eu subisse, ou me levantasse, fazia questão de
te dizer que nunca recolhi folhas que não se inscrevessem poesia no chão,
“Nesse tempo tudo era poesia, aquela poesia que ficou gravada do meu peito
aquela que aqui eu escrevo”. Quando afinal comecei a perceber da minha
fragilidade, me senti muito só, era como desejar o que nunca fui capaz de ter.
Só em lembrar já pode ser cruel, porque passou a ser com
medo que frequentei aqueles lugares. Não me sentia capaz de reconhecer quem eu
era, e com quem eu andava. Era eu e um ritmo tonto que eu não conseguia
controlar, uma falta de confiança por nunca conseguir, te sentir completamente
comigo, completamente a meu lado, por nunca saber o que estava a chegar de
novo, ou um olhar de querer que o tempo passasse que me deixava completamente desconfortável.
Mas deambulava sem heroísmo a teu lado, e sentia no teu olhar
uma falta de confiança em mim até chegar a coragem de confesso, que afinal
nunca tinha existido, e que a comoção estava gasta, e que todas as agitações só
apareciam em pequenas porções relâmpago, sempre por lugares onde tu me levavas,
lugares que me fazia esquecer tudo, até folhas secas, que com o tempo foram
perdendo as vísceras. Eu quis sempre esvaziar-te em mim, encher-me por dentro
com as cordas do baloiço, entregar-te ao meu suporte, cada caminhada a teu lado
parecia um infinito.
Mas passou a ser amargo o tempo, porque tu assim o
querias, trocavas o meu tudo que era só teu, por todos os avisos que vinham de
fora de nós, e assim fazias de um lugar só nosso controlado por o outros
indesejáveis seres que nada nos acrescentava, mas que nunca deixaram de andar
ao nosso lado. Até no lago do parque que para mim fazia parte do meu paraíso,
não nos deixavam em paz.
E sem perceberes, tornavas o lugar não só escolhido para
nós os dois, mas sim para muitos outros, e tu nunca te preocupaste para que eu
não percebesse. Fazias do lindo passeio do parque algo que já lá não tinha chão
onde pudesse apanhar folhas secas.
Bem antes dos portões se fecharem, eu olhava para a copa
do muro que desfilava em cimento entre árvores, e sem ponto de passagem e sem
plano geral, obrigavas-me a dizer mil vezes o que faço eu aqui.
(15/05/2017)
Joaquim Rodriguessegunda-feira, 6 de março de 2017
"Difinição de Amor"
Joaquim rodrigues
Um velhinho entrou num consultório
médico para fazer um curativo, pois numa tarefa de casa tinha-se magoado numa mão na qual havia um profundo corte. Muito apressado o velhinho pediu
urgência no seu atendimento, pois tinha um compromisso muito sério a fazer.
O médico que o atendia levantou os olhos na sua direcção e muito curioso perguntou.
- O que tem você a fazer de tão urgente, para ser mais importante que o corte de sua mão? - perguntou o médico.
O simpático velhinho logo respondeu.
- Todas as manhãs eu tenho de visitar a minha esposa que está em tratamento numa outra clínica com o mal de Alzheimer e em fase já muito avançada.
O médico, preocupado com o atraso do atendimento, voltou a perguntar ao velhote.
- O que tem você a fazer de tão urgente, para ser mais importante que o corte de sua mão? - perguntou o médico.
O simpático velhinho logo respondeu.
- Todas as manhãs eu tenho de visitar a minha esposa que está em tratamento numa outra clínica com o mal de Alzheimer e em fase já muito avançada.
O médico, preocupado com o atraso do atendimento, voltou a perguntar ao velhote.
– Então? Mas hoje ela vai ficar muito preocupada com sua
demora?
O velhinho respondeu.
– Não, ela já não me conhece já não sabe quem eu sou, já vai para quase cinco anos que ela não me reconhece.
O médico então questionou o velhote.
– Mas então para que tanta pressa em vê-la todas as
manhãs, se ela já não o reconhece?
O velhinho então deu um sorriso e, batendo de leve no
ombro do médico, respondeu.
– Ela não me reconhece é verdade, não sabe quem eu sou
isso é tudo verdade Doutor, mas eu sei muito bem quem ela é!
O médico teve que aguentar forte para não deixar cair as
lágrimas que sentia querer cair pelo seu rosto, enquanto pensava.
“ O verdadeiro Amor
é isto! Não se resume ao físico, nem ao romantismo, o verdadeiro Amor é a aceitação
de tudo que o outro é. De tudo que foi um dia, do que será amanhã, e do que já não
é mais!
(05/03/2017)
"Nostalgia - I"
Joaquim Rodrigues
No crepúsculo do bar cheio a uma hora tardia, os focos de
luz caem sobre a banda que atua no palco ao fundo da sala. Sentado a uma mesa
num canto discreto, ele fuma um cigarro e observa a sala, satisfeito com o
resultado de um longo trabalho. Abriu o bar há quase cinco anos e agora é um
sucesso, mas o pensamento foge-lhe para uma recordação melancólica, como lhe
acontece recorrentemente. Lembra-se dela, parece que a está a ver ali à frente
a cantar, com a sala caída num silêncio rendido ao fôlego suspenso numa emoção,
as almas enlevadas, prestes a rebentar em palmas e gritos de entusiasmada
aprovação ao extinguir-se o último som que lhe sai do coração.
Recorda-a a servir às mesas e atrás do bar. É bonita, tem
um sorriso tímido, faz o seu trabalho sem se fazer notar, mas sem uma falha.
Lembra-se de entrar no restaurante durante a tarde, a uma hora em que está
fechado ao público, e surpreendê-la sozinha no palco, sentada num banco alto a
tocar a guitarra e a cantar de olhos fechados para a sala vazia. Ele fica ali
parado de pé, espantado, a pensar que nunca ouviu uma voz assim. A música
acaba, ela abre os olhos e fica embaraçada ao perceber que ele estava a ouvi-la
sem que tivesse dado pela sua presença, nem a sua chegada.
Convence-a a cantar em público, procura músicos para a
acompanharem, ajuda-a a começar a nova carreira, apaixona-se. Ela diz que o
ama, que ele é tudo para si. Enche a sala todas as semanas, com a sua voz, com
gente que vem de longe para a ouvir. Grava um disco, passa na rádio, dá
concertos. Parte em digressão pelo país e telefona-lhe um dia – ele lembra-se
desse telefonema como se fosse hoje, com a mesma angústia.
- Desculpa-me mas
não volto mais, diz-lhe que já não volta para ele.
Soube que ela vivia com um dos músicos da banda. Ela
escreve-lhe uns emails dispersos, sempre que chega a uma terra nova. E ele
nunca lhe responde, e os emails são cada vez mais espaçados no tempo, até
findarem definitivamente.
Ao fim da noite, depois de terem saído todos os clientes
do bar restaurante, só lhe resta fechar a porta e ir para casa. Mas fica ainda
um pouco a acabar a bebida, a fumar mais um cigarro, sentado no crepúsculo, à
mesa do canto. À sua esquerda, a luz da rua entra pelos vidros da porta. Ela
está ali parada a olhar para ele, meio rosto iluminado pela claridade de fora.
- Estava a pensar
em ti, diz ele, sem se preocupar em fingir que não quer saber dela.
- O quê?
- A pensar se
voltarias um dia.
- Nunca me fui
embora, responde ela, na minha cabeça estive sempre aqui.
Passa por ele um sorriso fugaz, e pergunta-lhe.
- Queres sentar-te?
Ela tira o casaco
enquanto ele lhe serve uma bebida da garrafa em cima da mesa, então diz.
- Conta lá! Por
onde tens andado?
(16/12/2016)
Joaquim Rodriguesdomingo, 27 de novembro de 2016
“SONHO”
Joaquim Rodrigues
”O amor nos faz sonhar, não é mesmo? Mas o sonho a mim não me
faz dormir. Quero encostar o meu corpo no teu, mas sem ter nuvens.
Quero seguir com obediência o papel da minha mente, e fazer
seguir o teu corpo nos meus passos, sentir nas minhas costas os teus braços,
num calor um ferver abençoado, entre desejos e paixão como dois amantes entre
lenções.
Ter os teus lábios recitando poros da alma nesta união
serena, e ver que tu és um alvo moldado, um recital carnal de palavras muda.
Sentir teus suspiros como o som da música que dançamos de
rostos colados sentindo o amor. Seja de olhos bem abertos ou fechados, sempre
num ambiente perfumado como uma flor."
(27/11/2016)
“Joaquim Rodrigues
domingo, 23 de outubro de 2016
"O casamento hoje"
Joaquim Rodrigues
Afinal os tempos de hoje não estão em mudança, os tempos de hoje mudaram há muito. Já passaram muitos anos que não vimos famílias como antigamente, já não se vê pessoas como no tempo dos nossos pais. Eram tempos em que um casamento tinha um juramento sincero de longevidade, e as pessoas eram felizes, muito mais felizes do que o são hoje. Constituíam um lar, uma família, e era saudável de ver. Nunca se queixavam de nada, eram muito mais felizes, e assumiam como eram, e a que classe social pertencia nada os proibia de serem feliz, nada era mais importante do que a felicidade da família, nada tinha obstáculo, como parece ter as famílias de hoje.
Hoje as pessoas não sabem viver como no antigamente, hoje as pessoas parece estar mais interessadas em correr atrás de interesses pessoais e misturarem juras de amor e fidelidade eterna, mas que afinal nunca chegam a cumprir essas juras prometidas.
Então porque será que as pessoas de hoje querem casar, e assinar um contrato, um código de conduta para sempre? Não se estará a viver uma falsa ilusão de que o casamento fará ter um parceiro para todas actividades no amor. Ou o casamento é uma troca de interesses, como a prostituição, que se casa em troca de algo, e aceita-se muitas situações porque se ganha com isso, e viver assim com alguma coisa, é melhor que não ter nada.
Na idade madura o casamento parece ser muito mais sério que quando somos jovens, pela simples razão, que já não existe muito tempo a perder, já não vivem naquela época do cego e do mudo ou do retardado. Hoje vivemos de paixões e necessidades sexuais, e passamos o tempo a confundir isso com o amor. Isso, dura durante 2 a 3 anos, não mais, e logo passam a cair na realidade, o sangue deixa de correr nas veias da paixão, os problemas sobem ao nível do nosso olhar, e o conceito de prostituição no casamento se faz presente.
E agora temos um casamento que passa a existir como uma troca de favores, de um lado está o marido, com a função de financiar a família do outro, a esposa que administra a casa, cuida dos filhos e comparece à noite, para sexo.
Existem também casamentos que são concretizados por interesse explícito, ou pelo dinheiro ou pela posição de vida que a pessoa pode gerar, em ambos os casos é prostituição no casamento. Não existe uma mulher casada que não tenha se prostituído no casamento, porque ela teve momentos no casamento que praticou sexo sem vontade, apenas para agradar ao marido que passou um mau dia no trabalho e estava querendo aliviar as suas tensões.
Pode parecer algo estupido, mas se analisarmos vamos chegar a uma conclusão de que no fundo o casamento não é nada mais que uma troca de interesses, que na maioria das vezes é representado pelo amor. As pessoas têm uma necessidade de amar e ser amadas, mas esquecem-se que no concreto não ficam firmes sem que se misture vários componentes, ou seja, é necessário mais que amor para estruturar um casamento.
Na verdade, principal alicerce dos casamentos de hoje é o conformismo, porque financeiramente, se sentem bem, pela companhia do parceiro ou até mesmo pelo que a sociedade definiu como regra. Todos ou quase todos são obrigados a casar. Como se percebe as colagens dos casamentos são muitas, mas nem sempre são eficaz e quase sempre são escondidas ou camufladas.
Pensar nas possibilidades do casamento é pensar no futuro ou no que os outros pensam, ideologias é viver na ilusão do amor e nada mais.
O meu pensamento pode até ser contra mim mesmo, mas para mim, os casamentos não passam de uma tentativa, escusada, para qualquer ser humano fugir à solidão, porque se isso para muitos parece o fim. Então, pergunto eu, se não conseguem conviver consigo mesmo, como vão poder conviver em conjunto?
(23/10/2016)
Joaquim Rodrigues
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